Carta para uma militante

Não pude ir à Belém. Você que está aí aproveite esta festa cidadã. Queria te pedir algumas coisas e recomendar outras.

Queria que você olhasse esse Fórum Social Mundial com muita atenção, pois ele não se dá em um momento qualquer. O planeta está passando por um momento de virada. Não me pergunte a direção. Só sei que devemos estar atentos. Um olho no trabalho e outro na alma.

Na minha leitura o tempo atual é de um reviver mítico do “em algum lugar além do arco-íris” para os norte-americanos. Para nós, os sul-americanos, é o mito de Maíra, o herói, a divindade dos povos Tupi. Àquele a quem atribuem a criação do mundo, dos homens e dos bens de cultura.

Na cosmogonia tupi Maíra fez a terra e os rios, depois mandou um macaco gigantesco plantar as matas. Depois saiu pelo mundo perguntando às coisas: “quem é você?”, e a mandioca respondia: “eu sou a mandioca”.  Assim, com todas as coisas existentes e ainda por existir.

Assim, neste contexto histórico “prá aonde vamos” insere-se o FSM, que se insere na mata amazônica. A mata cerca o FSM. Não a mata física, mas a mata simbólica, a mata que cada um traz desde os princípios dos tempos plantadas em seus inconscientes. Onde mora o Curupira, o Anhangá, o Saci, o Boitatá, o Anhanguera, a Uiara, a Cobra Grande e todos os parentes que foram gente um dia.

O tempo histórico e o tempo do FSM estão sendo gestados em um tempo mágico. Em um momento simbólico tão forte como o redescobrir o Eldorado. O Fórum revive mitos escondidos na nossa alma. Toca em sentimentos esquecidos. Memórias perdidas nas gerações passadas. Isso tudo não é material, é imaterial. É um sentir, um emponderar de alma e espírito.

Por isso, você que está aí, olhe com olhos da alma. Sinta espiritualmente o que daqui, do coração do Planalto Central, não posso sentir, mas intuir.

Quando estamos no redemoinho dos acontecimentos perdemos o sentido histórico do que vivenciamos. Fixamos na árvore e perdemos o bosque. Por isso, te escrevo para te alertar. Brecht aconselhava ao ator o distanciamento do personagem para que a platéia entendesse a crítica embutida na cena. Assim como o velho mestre alemão, recomendo-lhe o mesmo. Execute o distanciamento, mas não a ponto de não se envolver, de não vivenciar.

Por fim, perdoe-me de não estar acompanhando a marcha. De não estar gritando as mais toscas palavras de ordem. De não estar sendo ridículo junto com tantos outros ridículos que, por fim, ninguém o é. Você sabe que isto faz falta para a minha alma, para continuar a viver, mas outros compromissos me prenderam por aqui.

Bem, vou parando por aqui, pois o tempo é curto e precisamos avançar.
Um grande abraço carinhoso.

Edelcio Vigna

Atila Roque Fórum Social Mundial, cultura e política

  1. Tauanna Oliveira
    30, janeiro, 2009 em 19:54 | #1

    Achei a carta muito estimulante, dando uma força ainda maior para as mulheres em suas lutas cotidianas.
    Como mulher, cahei a carta muito simples e direta a ponto de me emocionar.
    Parabéns.

  1. Nenhum trackback ainda.