Página Inicial > cultura e política, educação > E a educação popular…

E a educação popular…

Cleo Manhas

.

Na última semana assistimos a cobertura da mídia aos Fóruns Social Mundial em Belém e Econômico em Davos e algumas considerações precisam ser feitas.

Sempre que os telejornais se referiam ao Fórum de Davos mostravam algum “especialista” falando a respeito do assunto tratado, ou seja, foi dado voz àquele evento. Ao contrário, ao referirem-se ao Fórum Social Mundial, apenas mostravam cenas, de maneira folclórica e a voz era sempre dos telejornais, que sempre falavam pelo Fórum.

Apesar de mostrar o esvaziamento do Fórum Econômico em Davos, causado pela grave crise que estamos atravessando, não desafiaram aquele já desmoralizado Fórum, pois deram voz ao evento, até mesmo para explicar a crise e receitar remédios para ela.

E continuavam a mostrar imagens dos acampamentos, namoros nos acampamentos, comércio nos acampamentos, com o título: “Apesar de lutarem por um outro mundo, os participantes do Fórum Social Mundial aproveitam este mundo”.

Não fosse o trabalho das mídias alternativas, não teríamos acesso aos temas, diálogos, polêmicas e conteúdos produzidos pelos milhares de participantes, de todas as partes do mundo, que estão pensando e agindo por um mundo diferente, onde haja, até mesmo, verdadeira liberdade de imprensa, com veículos desprovidos de preconceitos e idéias pertencentes aos grupos hegemônicos.

Essa cobertura enviesada e tendenciosa da grande imprensa a respeito do Fórum Social Mundial recordou-me outro eterno preconceito, que permeia nossas interações sociais, acerca da educação popular.

Sempre que falamos a seu respeito tendemos a retratá-la pelo seu negativo, ou seja, pelo que ela não é: não escolarizada, que se contrapõe à proposta hegemônica de educação; e não pelo que de fato propõe, ou seja, uma educação que se quer emancipadora, porém, emancipação com. Com a comunidade à qual cada um pertença, com sua diversidade e identidade, não a emancipação proposta pela modernidade, especialmente por Habermas, que a vê como a emancipação do indivíduo.

O fato de a educação popular suscitar preconceitos não nos espanta, visto que desde a chegada dos portugueses em terras brasileiras a educação ficou a cargo de um grupo elitista que tenta, até hoje, impor seu padrão único. Além disso, Paulo Freire quando pensou em sua educação libertária, em contraponto à educação bancária, estava justamente se opondo ao modelo vigente.

Não que a educação popular deva suplantar a escola, ao contrário, como no sonho fomentado pelas idéias freireanas, ela permite que cultivemos a utopia de que a educação escolarizada um dia se realize como uma verdadeira educação popular, respeitando e permitindo que a diversidade permeie as relações intramuros.

Do contrário, vingará sempre a sensação amedrontada exibida muitas vezes pela sociedade e pelo Estado acerca do protagonismo ameaçador que nossa cultura vê nos setores populares. Isso sem contar com o preconceito, também arraigado, sobre tudo que é chamado de popular, pois está se contrapondo ao erudito, que é respeitado por estar relacionado, também, à cultura de elite.

Há ainda o fato de nossa formação histórica ser conservadora e autoritária. E uma educação que se propõe emancipadora, prevê o respeito ao conhecimento prévio das pessoas, além da problematização de conteúdos; bem mais complicado que instituir um currículo único, pensado e formulado de maneira centralizada e distribuído para ser executado, especialmente, em um país de dimensões continentais como o nosso, pleno de desigualdades e diversidades.

Além disso, não nos parece simples que a proposta de educação hegemônica aceite como legítimas as diversas formas de educação popular, organizadas ou não, que se desenvolvem em diversos lugares. Como o hip hop, o funk, as organizações de agricultores familiares, o MST, as diversas organizações comunitárias que se desenvolvem nas periferias das cidades, entre outras.  Especialmente, porque elas estão se contrapondo ao modelo em vigor, estão propondo mudanças e novas abordagens, buscando outros espaços, que, caso conquistados, restringirão os espaços hegemônicos.

Esse talvez seja o principal motivo pelo qual a academia tem dificuldades em aceitar a educação popular como educação. Mesmo em suas faculdades de educação teimam em não abrir espaços para pesquisas relacionadas aos movimentos populares, pois ao pesquisá-los terão de reconhecê-los. O que impedirá que continuemos com a postura avestruz (não vejo, então não existe), que consolida o modelo escolar vigente como o único.

INESC cultura e política, educação

  1. Re Moura
    6, fevereiro, 2010 em 15:29 | #1

    Me insiro na plataforma que anseia a legitimação e a consolidação da educação população enquanto ferramenta libertária. No entanto, o desafio maior é como você mesma citou, como desconstruir a cultura da invisibilidade, ou se preferir a “postura avestruz”, onde a ordem econômica neoliberal (hegemonia do capital) impera e impossibilita que se enxergue a inversão de valores que permeia não apenas na realidade brasileira, mas nas diferentes partes do mundo.

  1. Nenhum trackback ainda.