O esvaziamento político da eleição no Senado

Edélcio Vigna
A vitória de José Sarney (PMDB/AP) à presidência do Senado Federal, para a legislatura 2009-2010, demonstra mais uma vez que em política a boa intenção não basta se não houver um ambiente onde possa florescer e se manter. O candidato Tião Vianna (PT/AC) trouxe para a cena política uma proposta de mudança, de moralização do Senado e de que a “experiência sem compromisso” é como um carro com farol voltado para trás. Mas, estas palavras permaneceram no papel que ele timidamente leu da tribuna defendendo sua candidatura.
O senador Sarney, contrariando a insinuação do senador Tião, demonstrou que a experiência dá altura cívica ao homem. Da tribuna relatou fatos, relacionou sua luta com grandes personalidades políticas, fez citações de grandes homens e ganhou a eleição.
O cenário inicial era desfavorável ao senador Tião Vianna. A sua articulação (PSDB, PT, PR, PSB, PRB e PSOL) somava 33 votos. A do senador Sarney (PMDB, DEM e PTB), aglutinavam 41 votos. A faixa dos indecisos (PDT, PCdoB e PP), era de 7 deputados. Assim, mesmo se todos os indecisos votassem no senador acreano, este ainda perderia por um voto.
A esperança da articulação do senador Tião era obter os votos dos indecisos e esperar uma dissidência na articulação Sarney suficiente para vencer a eleição. Esta estratégia era em si uma estratégia perdedora, pois contradizia com os termos da sua proposta. Como trabalhar pela moralidade se a vitória seria sustentada pela traição? Como trabalhar com o tapume da votação secreta na crença de poder levar vantagem? Sabe-se que em política há dois tipos de articulação: uma para vencer e outra para governar. Mas, nem sempre os fatos obedecem esta ordem.
Pela primeira vez não notamos a presença e pressão do governo federal na disputa. Até entendemos, pois esta ocorria entre partidos membros da base de apoio parlamentar. Se por um lado o senador Sarney é um homem confiável, de feitio governamental, o Tião é fiel ao partido. Pode até ser mais indócil com os encaminhamentos que a presidência poderá adotar em 2010.
Acreditamos que este não é o problema maior. O que nos incomoda enquanto organização não-governamental é que as disputas no Parlamento, no caso das presidências, não levam em considerações os interesses da sociedade civil. Essas disputas de cargos são consideradas como disputas puramente políticas - que depois tem um impacto grande na definição das pautas de votação. Avaliamos, então que este é o elemento importante que deve entrar na análise.
Só na dimensão da disputa do “puramente político” é que o Sarney se sustenta enquanto político conservador desde a Arena. Perde-se a dimensão social da política, onde entraria a necessidade de um programa de trabalho e a democratização do parlamento. Essa exigência por parte dos parlamentares seria a razão para envolver a sociedade e torná-la co-participe do processo político nacional.
Avaliamos que a presidência do senador Tião Vianna seria diferente da atuação do senador José Sarney, eleito presidente do Senado Federal. Os compromissos com o futuro e as amarras do conservadorismo são visivelmente diferentes entre um e outro. Foram nestas amarras da tradição que o velho marinheiro soube sustentar o seu barco e vencer a eleição.
O placar foi de 49 votos para Sarney e 32 para o senador Tião. A dissidência esperada pela articulação de Tião ocorreu em suas próprias fileiras. Sarney saiu com 41 votos e alcançou 49. Tião largou com 33 e chegou com 32. Na corrida até as urnas perdeu um voto e não conseguiu a adesão dos indecisos. Se conseguiu algum, perdeu mais entre seus próprios pares.
O que preocupa não é o homem, mas quem o acompanha. Apoiado pelas alas conservadoras da política brasileira não podemos esperar, nesta legislatura, nenhuma mudança seja administrativa ou de recuperação política do Senado Federal. As dificuldades de uma recuperação da imagem diante da opinião pública multiplicar-se-ão. O que podemos esperar do Senado é o imobilismo diante do crescimento da crise atual que chega em ondas e sacode os setores produtivos nacionais. A má vontade de encaminhar soluções para os problemas sociais ganhará força em um ambiente onde os interesses das elites mandarão e desmandarão, ainda mais.
Este cenário que vem se reproduzindo desde o início da República só vai ser alterado quando os setores democráticos da sociedade civil enfrentar o desafio de mudar a estrutura de poder de decisão política brasileira.



