A Igreja Talibã mostra a sua cara
A combinação da ausência de compaixão com o fundamentalismo religioso produziu, às vésperas do Dia Internacional da Mulher, uma das mais grotescas manifestações a respeito da tragédia que se abateu sobre uma menina de 09 anos em Pernambuco, grávida após ser repetidas vezes estuprada pelo padrasto. A declaração do arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho - justificando a espantosa excomunhão dos médicos, da mãe e de todos os envolvidos no mero cumprimento da lei e na preservação da vida da menina, mas não do padrasto - de que “o aborto é mais grave do que o estupro” superou as expectativas mesmo daqueles que já não se espantam com mais nada. Declaração acompanhada de manifestações de apoio da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos) e do Vaticano…
Não consigo experimentar outro sentimento a não ser nojo e desprezo por essa Igreja que nada tem a ver com as melhores tradições cristãs. A burrice, o poder e um pretenso monopólio sobre os dogmas da fé, ao longo da história, sempre produziram e continuam a produzir barbaridades. Custei a acreditar no veredicto do bispo que ocupa hoje um território que já foi de Dom Helder Câmara. As mulheres, as meninas, as jovens que sofrem cotidianamente com a violência dos homens - estupradas, espancadas, trancadas em casa, discriminadas no mercado de trabalho e, especialmente a vítima de 9 anos, mereciam no mínimo, a solidariedade da Igreja diante de tamanha tragédia. Mas se isso era pedir demais, o silêncio seria suficiente.
Disso tudo restou como uma luz no fim do túnel a coragem e a dignidade dos médicos e da justiça que rapidamente cumpriram a lei e protegeram quem deveria ser protegida. Louve-se também a pronta reação do Presidente e do Ministro da Saúde, assim como as posições quase unânime dos comentaristas da grande imprensa em condenar o bispo inquisidor, pronto a jogar na fogueira todos nós, inclusive os que, como eu, não dou a mínima para o que a Igreja Católica pensa ou deixa de pensar no campo religioso. Mas que tenho tudo a ver quando se metem nos assuntos públicos.
Viva as mulheres e os seus direitos nesse 08 de março marcado por tanta dor, tristeza e intolerância.
Atila Roque
(Este post foi publicado simultaneamente no Blog do Inesc e no Opinativas - como expressão nada mais nada menos da minha própria opinião)


Atila,
Sinto a mesma indignação e desprezo por este tipo de Igreja, machista, retrógrada e intolerante. É dificil acreditar, parece história de assombração, daquelas para assustar e de antigamente. Mas, não é não!É hoje, século XXI. É mole???
É isso mesmo, Iarita, assombração das piores, hordas carregando a cruz e queimando as mulheres. Esse arcebispo é um pequeno e extemporâneo Torquemada, em pleno século xxi. Incrível!
Realmente, é de se indignar!!! O pior é que a imposição fundamentalista da sua verdade dogmática para todo mundo não para por aí… veja só a matéria publicada no Diário de Pernambuco, pela qual ficamos sabendo que a arquidiocese daquele estado, para a celebração de um convenio entre a Santa Casa e o Hospital Universitário (onde a menina foi atendida) está exigindo que o Hospital Universitário - HUOC não preste serviços obstétricos!!! E o convenio em questão é para a prestação de serviços de radioterapia e quimioterapia Direito à saúde é coisa que não existe para estes senhores. Direito é por princípio laico. E se as dioceses e as Santas Casas de Misericórdia se negam a respeitar direitos, então também não deviam estar conveniadas ao SUS nem ter as isenções de entidades filantrópicas das quais desfrutam, porque por princípio, recurso público é para responder ao interesse público, aos direitos das pessoas.
Um abraço,
Guacira
JORNAL DO COMMÉRCIO - PE
CIDADES
2009-03-14 07:21:48
Ministérios dão apoio à equipe médica do Cisam
Indiferente à discussão no Vaticano, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, enviou ontem carta à direção do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam) elogiando a conduta adotada pela equipe no caso da garota de 9 anos estuprada e grávida do padrasto
A equipe do Cisam deu um exemplo de profissionalismo, democracia e humanismo à sociedade brasileira. Parabenizo-a pelo cumprimento da laicidade do Estado brasileiro ao ter realizado o procedimento médico necessário para a garantia da Saúde e do bem-estar da menina grávida de gêmeos por um ato de violência sexual”, destacou o ministro. A correspondência foi entregue pelo seu assessor Adson França à diretora do Cisam, Fátima Maia.
Também ontem, na mesma solenidade, a ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Nilcéa Freire, expressou, através de ofícios, sua solariedade à mãe da garota e à equipe do Cisam. A assessora da secretaria, Elizabeth Saar, repassou o documento à direção do hospital e ao reitor da Universidade de Pernambuco (UPE), Carlos Calado, à qual o Cisam está vinculado. Outras duas entidades manifestaram apoio ao trabalho da unidade de Saúde: o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda).
Até então sem se pronunciar sobre o assunto, o reitor justificou ontem seu silêncio. O terreno onde está o Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc) pertence à Santa Casa de Misericórdia, da Arquidiocese de Olinda e Recife. Para fechar dois convênios com o Ministério da Saúde, que possibilitará a oferta de serviços de radioterapia e quimioterapia no Huoc, a UPE dependia de termo de cessão pública por um prazo de 20 anos assinado pela arquidiocese.
“Preferi não me pronunciar antes para não misturar as coisas”, comentou o reitor, pela manhã, ressaltando que apoiou a atitude da equipe do Cisam. Ele afirmou que procuraria o ministro da Saúde, caso a arquidiocese não assinasse o documento. Não precisou esperar muito. Ainda pela manhã, recebeu o consentimento do órgão máximo da Igreja Católica na capital pernambucana. Mas a arquidiocese exigiu que no contrato houvesse uma cláusula em que o Huoc garante não realizar “procedimentos obstetrícios