Estão rindo do que?

Venho acompanhando com especial interesse a reunião do G-20. De um lado 20 países eleitos os mais ricos, pelos mais ricos ainda, o G-7, se juntaram para impor ou tentar organizar um caminho frente ao caos e à crise econômica mundial. Há cerca de um ano o mundo caiu numa ladeira íngreme decorrência da ciranda financeira, da falta de transparência e regulação dos mercados. A irresponsabilidade campeou o mundo! Susto! Crise climática, crise alimentar, e agora, a crise financeira. Esta sim produziu abalo nos bolsos e nos humores dos ricos. Como se esta fosse a grande crise.
No meio de uma agenda pesada e séria, que traz consigo o sofrimento de milhões de pessoas e famílias que perderam tudo, casa, emprego e sem suporte das políticas públicas dos governos, podia-se ver nos rostos dos presidentes e Chefes de Estado o sorriso otimista e de firme determinação. Detalhe: muitos homens e apenas três mulheres, isto é, duas, porque a terceira só pousava na foto oficial como a grande Majestade anfitriã Rainha Elizabeth II, afinal, não lhe cabia entrar nos intestinos do debate. Coisa indigesta para uma Rainha. Mas, todos e todas aparentemente determinados e otimistas. Grande astral !!
Quem olha para os jornais de hoje, até acredita que o espírito solidário prevaleceu e que decisões de benefício coletivo importantes foram tomadas. Os analistas políticos e econômicos pró sistema dizem que as decisões foram além do esperado, que foram tomadas atitudes corajosas para regular o sistema financeiro, promover transparência das transações bancárias, etc,etc. O caminho foi aberto para inibir (será???) os paraísos fiscais. Injetar mais de 5 trilhões de dólares americanos na economia mundial para ajudar todos os paises, cada um na sua medida, a enfrentar a crise depois do estouro da bolha nascida nos EUA e que contaminou o mundo.
Muito bem. Está tudo muito bom, tudo muito bem, mas exatamente o que muda diante de tantos desacertos? O sistema financeiro começa a reagir, as bolsas, subindo e descendo ( mais subindo que descendo!). Hoje temos menos ricos no mundo. Isso é uma excelente notícia já que a imoralidade esta tanto no excesso da riqueza como no excesso da pobreza. Mas, e daí? O que mudou de estrutural na relação entre pobres e ricos, centros e periferias ?
Mas, os lideres se reuniram para nos salvar. Os super heróis de nosso tempo. De que Planeta eles falavam?? Saíram, alegres, espalhando sorrisos. Rindo do que, caras pálidas???
Do lado de fora o pau comia nas ruas, pessoas gritavam contra este sistema que abafa e sangra o Planeta, querendo visibilidade e entendimento destes lideres e da sociedade. Revelando as contradições e as tragédias que o capitalismo selvagem vem produzindo. Esta, não serve, não inclui todos e todas, não preserva ou conserva aquilo que nos garantirá vida presente e futura de qualidade. Vida de qualidade se reproduz com um meio ambiente saudável, trabalho digno e valores que respeitem a diversidade e multiplicidade do saber e ser.
A crise financeira, entretanto, foi mais importante, mais urgente para os nossos lideres de governo. Era necessário salvar os ricos do mundo!! Claro, feito isto, voltemos à discussão infindável e insolúvel de como acabar com a pobreza e a desigualdade e como poderemos minimizar os danos ambientais. É o capitalismo se esverdeando, mudando de rumo para, mais uma vez, sobreviver a mais uma crise.
Esperemos que a Conferência em Copenhague sobre Mudança Climática, em dezembro, seja contagiada pelo otimismo, atitudes corajosas e injeção de trilhões de dólares americanos para produção de energia limpa, reinvenção de um modelo produtivo e de consumo que seja capaz de construir formas sustentáveis de bem viver (como propõem os índios da América do Sul). Quem sabe, alguma nova tragédia possa despertar as mentes viciadas e formigantes dos poderosos e não haja outro caminho senão a mudança.
Mas, para isso, entre outras coisas, a Organização das Nações Unidas (ONU) precisa ser a instância máxima do multilateralismo e das tomadas de decisão no plano internacional. Precisa rever a formação do Conselho de Segurança, repartindo o poder entre os seus membros.
Mas, ao contrário, mais uma vez, a fórmula é salvar o FMI injetando 1 trilhão de dólares e, também, o Banco Mundial, que são instituições controversas e que trazem em suas histórias mais fracassos que sucessos. Nada muda no sistema de voto e de poder que organiza os paises do mundo nestas instituições. Cadê o novo? Onde está a ousadia necessária para dar espaço às inovações, tanto institucionais como de tecnologias, de novos sistemas comerciais. Propostas não faltam.
Yes we can ! Mudar para outros mundos possíveis. É isso que o povo na rua está exigindo, gritando, cantando!! Será que eles ouviram? Tem muitos muros separando uns dos outros.
Iara Pietricovsky
Colegiado de Gestão do INESC

Eu não sei se eles estão rindo de achar graça ou se de tensão. Porque ninguém, nem eles, sabem o tamanho do rombo da bolha. Acenaram com US$ 1 trilhão e já adiantam que vão precisar mais de US$ 5 trilhões. Então, por que já não adiantaram US$ 6 ou 7 trilhões? O representante da China, com aquele sorriso amarelo, não disse sim nem não. Uma coisa é certa: uma nova arquitetura financeira mundial está nascendo com o G20. Se isso vai trazer pão e felicidade para não se sabe. Mas sabe-se que se isso não acontecer a ladeira vai ficar mais íncrime e a fome e a miséria vai campear com mais voracidade dentre os povos pobres.
Parabéns pelo artigo.