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Juros, spread e muita cara de pau!

Alessandra Cardoso - Assessora Inesc

Os jornais comentam hoje o tom da ata da última reunião do Copom e a reação do mercado. No Valor econômico tem uma matéria cujo título resume bem a missa: “BC passa um pito no mercado e juro juro-altocai”. Para além das explicações economicistas, o que o Copom fez, e me parece de forma inédita nos últimos anos, que eu me lembre, foi dizer para o mercado: os juros vão cair sim, e mais do que vocês esperam (ou querem), porque é necessário que caiam neste momento de crise e porque existe ambiente macroeconômico para isto; quem precisa rever expectativas e suas posições no mercado financeiro são vocês. Os resultados já foram sentidos, o chamado mercado já reviu suas expectativas de juros futuros, até então muito reticentes à queda.

Será isto mesmo? A política monetária insinuando assumir seu papel de sinalizadora das expectativas do mercado e não meramente de chancela das expectativas dissimuladamente conservadoras do mercado financeiro?

Valeria uma boa análise política sobre os ventos que têm promovido esta mudança e como, daqui para frente, este cenário poderá evoluir (em paralelo a outro cenário, o das eleições presidenciais). Inclusive como vão se articular as forças que resistem a esta ainda tímida tendência de redução dos juros e de tentativa de controle da Política Monetária pelo Estado.

O fato é que até agora o chamado mercado financeiro foi muito eficiente no “comando” da política monetária. Acho que tão eficiente que despreocupado da excessiva exposição seus porta-vozes (veja que nível de inversão chegamos) têm coragem de assumir publicamente posições que beiram o completo cinismo.

Sobre isto, passeando pelo caderno Dinheiro da Folha de São Paulo desta semana me deparei com outra matéria que me chamou atenção, pela cara de pau absoluta e ilimitada desses caras do mercado financeiro. Vejam só, a matéria comentava a ampliação da carteira de crédito dos bancos com base em um estudo de uma empresa bem conhecida no meio financeiro, a Austin Rating. A matéria focava a ampliação dos rendimentos dos bancos com operações de crédito, que entre 2007 e 2008 subiram 55% e responderam por mais da metade da receita dos bancos no ano passado -R$ 226 bilhões de um total de R$ 445 bilhões. Esta tendência de crescimento da carteira de crédito dos bancos, segundo o economista chefe da tal empresa, se manterá firme, mesmo com a crise, uma vez que está sendo bem alimentado pelos “incentivos do governo, como o pacote habitacional, a redução do IPI para veículos e o corte no juro básico”.

Até aí tudo bem, quer dizer tudo bem para os bancos que conseguiram nestes últimos anos para expandir ainda mais os seus já fabulosos resultados financeiros. Tudo bem também para estes formadores de opinião do tal do mercado, que devem ganhar somas fabulosas para que emitam opiniões “técnicas e científicas” que são muito eficazes para personificar e fazer ecoar a opinião e os interesses do mercado. Opiniões que são uníssonas e ferrenhamente defensoras de uma política monetária dissimuladamente rigorosa que, em nome do controle inflacionário, ajudou a produzir neste país uma verdadeira agiotagem institucionalizada. Como nomear empréstimos pessoais com juros que chegam a 1.500% ao ano se não de agiotagem? O fato é que esta fabulosa máquina de transformar dinheiro em muito mais dinheiro foi por aqui potencializada de um jeitinho especial, acomodando interesses os mais diversos, inclusive do povão que agora pode ter acesso aos bens duráveis e sonhados, inclusive o seu próprio carro, em prestações que “cabem no seu bolso”. Ou dizendo de forma mais direta, incluindo o povão que transfere parte importante da renda do seu suado e quase sempre mal remunerado trabalho, da sua aposentadoria e até do seu Bolsa Família, para o mercado financeiro.

Mas voltando à matéria, o pior ainda estava por vir, nas linhas seguintes. O economista-chefe da Austin teve a cara de pau de afirmar em um jornal de circulação nacional que “tudo bem” os juros estão caindo, mas os spreads, estes não devem cair. Ou, como está literalmente na matéria, a queda do spread “não deve ser tão rápida quanto o governo deseja” em função da “necessidade dos bancos de manterem os ganhos com empréstimos para compensar perdas que devem ocorrer em outras fontes de receita”.

Resumindo a história: para compensar as quedas advindas da menor receita com títulos (que estão pagando juros menores em função da redução da SELIC) e também a queda dos valores mobiliários, em função da crise, os bancos vão continuar mantendo os juros ao tomador lá nas alturas, simplesmente porque têm poder para isto e porque querem continuar ganhando seus muitos milhões. É muito cinismo!

Ivone Melo economia

  1. 14, maio, 2009 em 19:37 | #1

    Achei ótimo seu artigo, com muito estilo. Acho que vc deveria fazer estes comentários com frequência.

    Abs,

    Iara

  2. Alessandra
    18, maio, 2009 em 10:36 | #2

    @Iara Pietricovsky
    Que legal, enfim um comentário, rs. Eu “gosto” deste tema, acho que porque sei bem o que é pagar tanto juro.
    Bjos

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