A escola e o muro

Cleomar Manhas*


Acabo de assistir ao filme “Entre os Muros da Escola”, do diretor francês Laurent Cantet, que relata um período letivo em uma sala de sétima série, de uma escola pública francesa, onde dividem o mesmo espaço adolescentes  das Antilhas; de vários países da África tais como Mali, Marrocos, Costa do Marfim; da China, dentre outros tantos lugares do mundo. A realidade vivida nesse espaço não deixa de ser um microcosmo do momento vivido pela França e por vários outros países europeus.

Os conflitos próprios da adolescência concorrem com conflitos de identidade, em confronto com uma tradição educacional presa a pressupostos disciplinares que não dão conta das contradições vivenciadas pelas inúmeras identidades, que não se somam, ao contrário, vivem um conflito sem fim.

O personagem central é o professor de francês que possui sensibilidade e quer fazer a diferença. Procura acolher ao invés de descartar, como os outros professores, mas não dá conta de todas as idiossincrasias e de tudo que está para além dos “muros da escola”. Talvez aí resida uma das questões problemáticas, os muros. A escola é uma instituição que se permitiu mudar muito pouco ao longo dos séculos. Ela continua atrás de muros altos e dificilmente acolhe as diferenças, fazendo com que os enunciados que afetam a superfície plana não sejam expostos ao diálogo verdadeiro e promotor de consensos e resolução de conflitos.

O que está estampado no filme é exatamente a incapacidade de esta instituição abarcar todas as demandas que a permeiam. No caso em tela, os problemas causados desde o processo de colonização, quando os países europeus saíram com seus navios em busca de ampliação dos seus poderes, dominando povos, apropriando-se de terras e riquezas de além mar. Escravizaram, colonizaram, catequizaram, expropriaram identidades impondo a cultura eurocêntrica e quando esses povos inverteram o sentido da viagem eles não os acolheram, ao contrário, passaram a vê-los como  problema a ser extirpado, tratando-os  como cidadãos de segunda, terceira categoria.

Aquela escola retrata essa forma de acolhê-los, confinando-nos e colocando-os distantes dos verdadeiros cidadãos de primeira classe. Como a escola continua fechada em si mesma, não consegue e não quer ver o que existe para além dos muros. As infinitas vidas, diferentes, carentes de direitos, usurpadas e vítimas das várias globalizações. Isso é um caldeirão prestes a explodir.

A educação, por sua vez, não se libertou do paradigma positivista e sua racionalidade instrumental e econômica. Além de impor uma visão fragmentada sobre a vida e o conhecimento.
Precisamos da contrapartida, que seria uma percepção holística e integral do mundo, com uma postura ética, responsável e solidária.

Necessitamos urgentemente de mudanças no modelo vigente, que  valoriza comportamentos consumistas, passividade política, excesso de informação sem visão processual e crítica e, por incrível que pareça,  a falta de comunicação que possibilite o amadurecimento da democracia, além da perda da dimensão histórica do ser humano devido a aceleração do tempo presente.

E que as escolas derrubem seus muros e venham interagir com as comunidades, pois o medo não pode superar a solidariedade e a necessidade de construção de novos comportamentos e relações, pautados pelo respeito, pelo acolhimento e pela liberdade.

* Assessora do Inesc para promoção dos direitos da Criança e do Adolescente

Assista abaixo um trecho do filme:

cultura e política, educação

  1. 4, junho, 2009 em 22:40 | #1

    Gostei muito deste artigo do BLOG.

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