O Presidente não lê
Sou otimista, mas tenho meus momentos depressivos. Cada um tem um jeito de se livrar do mau humor e do desânimo que toma conta da gente.
Algumas pessoas se deixam dominar. Outros se metem na cama e se recusam sair do quarto. Tem gente que briga. Bate na mulher, nos filhos, nos cachorros.
Os motivos da depressão são muitos e, em geral, insignificantes para os que estão do lado de fora. Você pode imaginar que uma pessoa entre em depressão porque leu uma matéria que o Presidente da República declarou que “não lê e que quando tenta ler tem azia”?
O jornalista da revista Piauí perguntou se tem o hábito de ler jornais. Diante de uma pergunta destas o presidente Lula, experiente, deveria ter dito “leio a Bíblia”, e ficaria bem com o eleitorado.
Quantas vezes olhei a estante cheia de livros, nem todos lidos inteiramente, e senti azia. Azia por reconhecer que ainda sei muito pouco. Que a vida é curta diante da vontade de ler tudo o que gostaria. Creio que os que gostam de ler já experimentaram o mesmo sentimento.
É possível que a azia do Presidente tenha, sem saber, o mesmo motivo. Ao tentar ler se reconhece tão ignorante que tem azia. Mas, como não lê, não sabe que quanto mais lemos mais reconhecemos a nossa ignorância. A frase “só sei que não sei”, jamais lhe passou pelos olhos.
O que mais me colocou para baixo foi perceber a gravidade da declaração diante de uma nação composta de analfabetos funcionais. Pessoas que lêem, mas não entendem o que lêem. A mensagem enviada para a sociedade foi desastrosa. Justifica o baixo índice de leitura existente no país.
De que serviram todas as pesquisas demonstrando que o nível de escolaridade aumenta a possibilidade de trabalho e renda? Como estimular as pessoas a estudarem, se formarem, se o Presidente da República não lê!
Faça um concurso público e veja os critérios exigidos. Mas, o principal servidor público do país, não gosta de ler. Tem azia! Um amigo meu diria: “tem azia e tem voto!”. É, de fato, tem voto, mas em compensação tem uma estreita visão de mundo.
Muitos dirão que a experiência substitui o diploma formal. Concordo e respeito o conhecimento dos povos originários. Um xamã, uma rezadeira, um manipulador de ervas medicinais, pode ter um conhecimento mágico que transcende as leis da medicina. O Presidente não é nada disso, ou é?
Ninguém desconhece a astúcia política do presidente Lula. Não é disso que estamos tratando. Estamos nos referindo às mensagens que uma figura poderosa, como o Presidente, pode passar para melhorar (ou piorar) a sociedade que o cerca. Qual a mensagem que passou o literato e presidente do Senado Federal, José Sarney? É isso que quero dizer.
Já pensaram que maravilha se o Presidente tirasse uma hora de seu dia para ouvir os melhores poetas, escritores, artistas e professores do nosso país. Não para encaminhar reivindicações, mas para ouvir poemas, contos, resumos de romances, receber indicações de leitura, entre outras coisas. Que mensagem poderosa à nação!
Mas, isso não vai ocorrer porque o Presidente não lê. Então, não vai ler este artigo. Nenhum assessor vai informar isso a ele. Para que chatear um homem que tem cerca de 80% da opinião publica a favor? Uma deslizadinha de nada…
Foi por isso que caí em depressão. E só me livro dela escrevendo o que pressiona meu coração. Agora já estou melhor do que quando comecei. Pensei que alguém da família pudesse ler. Talvez a Mariza… Acho bom parar por aqui, senão a depressão volta.
Edélcio Vigna, assessor do Inesc

Edelcio,
Gostei da sua postura independente. No momento em que todos são incondicionais defensores de Lula, é bom que digam toda a verdade…pelo menos de vez enquanto é bom, não? O Lula deixa escapar cada uma? Não precisava ter falado isso. Mas, falou. Então vamos analisar. Talvez, a mensagem política que ele queria transmitir era que não se pautava pela grande mídia. Ou seja, era quase uma resposta por anos de ataques e humilhações sofridas pelo PIG. Não seria isso? Se foi, até nisso a mídia conseguiu deixar passar somente a carga negativa da frase para a gente comprar. Ou teria passado de uma frase infeliz mesmo? Outra pergunta: quem votou nele fez isso pela sua trajetória intelectual? Ou já sabia e tinha orgulho de ele ser um operário que se transformou em político por vocação e passou a viver da política e para a política? Votou ou não sabendo disso tudo? Então, porque a surpresa? Será que não é uma postura meio pequeno burguês ou um caetanismo? O governo Lula investiu menos em educação superior do que qualquer outro? Já tivemos um presidente professor da Sorbonne? Seu governo foi superior? Se não? Onde está o mérito de um líder político ou o critério pelo qual deve ser julgado: nos seus deslizes verbais ou nos seus resultados? No sua autosuficiência intelectual ou na sua prática política do diálogo e negociação (e legitimidade)na esfera pública? Será possível termos tudo em um só lider?
Abraço,
João
Caro João, tomei conhecimento da entrevista à pouco tempo, mas ela aconteceu no início do ano. O jornalista Mário Sérgio pauta toda entrevista, de fato, sobre o papel da mídia. E o Presidente afirma e reafirma que prefere falar com seus assessores do que ler os jornais. Ele tem um conceito consolidado de cada articulista nacional. Não pautei minha “crônica”, até reconheço, se votaram (assim como votei) nele por ser isso ou aquilo. O que quis ressaltar é que não dá mais para um Presidente falar o que quer. Não é uma questão de honestidade para com o leitor/eleitor. Quando se é referência nacional a responsabilidade pelo que se diz ganha parâmetros de Estado. Não há nenhum julgamento sobre os avanços das políticas públicas empreendidas em seu mandato. Apenas, uma constatação: ele não lê em um país que não lê. Não estamos falando de um servidor comum. “Então ele deveria mentir?”. Claro que nâo! Ele deveria ler! Nem que fosse um só jornal. Que tal o Brasil de Fato? O Valor Econômico? Carta Maior? Por que não? Por que fazer tábua-rasa? Foi pensando nisso que resolvi brincar seriamente com as palavras sobre o papel.
Grande abraço,
Edelcio
Del, respeito sua opinião, mas você distorce um pouco o trecho da entrevista do Lula para justificar os seus argumentos. Esse entrevista foi dada para a Revista Piauí no dia 18 de dezembro de 2008 e publicada na edição nº 28, na primeira semana de janeiro de 2009.
Quando ele fala: “Não lê e quando tenta ler tem azia” ele está se referindo aos jornais desse país, que diga-se de passagem, muitas vezes também me dão azia. Transcrevo o trecho da entrevista para que cada um/uma possa tirar a sua conclusão:
O senhor lê jornal hoje, Presidente?
Eu leio menos do que deveria, e converso mais do que preciso.
Mas o senhor tem o hábito, de manhã o senhor pega o jornal…
Tenho não, eu não tenho isso faz tempo, faz tempo. Não é que não dá, é que eu não quero fazer.
Ah, não quer…
Eu tenho problema de azia. Eu me cuido profundamente, para não perder o humor logo cedo. Eu começo a minha atividade política tendo meia hora de conversa com o Franklin sobre a imprensa brasileira. Eu tinha com o Ricardo Kotscho, eu tinha com o André Singer, fazia uma avaliação da imprensa, as principais coisas, o que estava rolando no mundo político, o que estava rolando no mundo econômico. A partir daí tem a minha conversa diária…
E televisão, o senhor vê?
Raramente.
Raramente?
Porque não tem tempo. Raramente. Eu chego em casa muito tarde.
Mas e quando o Franklin, ou o Ricardo ou o André, diz “olha, o senhor precisa ler tal artigo ou tal documentário”?
Aí ele me traz o artigo. Aí me traz o artigo para ler, às vezes tem coisa boa na televisão e eles me trazem vídeo para eu ver, às vezes eu vejo no avião quando estou viajando.
Isso não dá para o senhor a impressão de que o senhor pode ter uma visão distorcida, sem (incompreensível)… o senhor não fica muito na mão do assessor?
Mas é muito melhor ficar na mão de um assessor em que eu confio do que na mão de um artigo que eu não conheço o jornalista. Então, eu prefiro conversar com alguém que eu recruto, da maior seriedade, e que me dá as informações corretas.
Mas saber o que está acontecendo no País e no mundo com a população, não é bom o senhor ler (incompreensível)?
Um homem que conversa com o tanto de pessoas que eu converso por dia deve ter uns 30 jornais na cabeça todo santo dia. O que acontece? Em cada conversa que você tem com uma pessoa, surge o assunto do dia, seja ele da economia, seja ele da agricultura, seja ele da política. Não há hipótese de um Presidente da República ser desinformado sobre as coisas mais importantes que acontecem no Brasil.
Agora, o que acontece é que muitas vezes você tem coisas que deformam a notícia. Por exemplo, quando nós lançamos o programa para o povo comprar material de construção com desconto, um jornal importante no Brasil publicou “Lula faveliza o Brasil”. Ou seja, é uma concepção distorcida de um cara que possivelmente não tem a menor noção do que significa as pessoas mais pobres terem acesso a comprar material de construção mais barato e poder fazer a sua casa, reformar, fazer a sua garagem, fazer seu puxadinho.
Quando eu fiz o programa Bolsa Família, as matérias que saíam deles, analistas, eram de que isso era assistencialismo. Ou seja, as pessoas muitas vezes têm a sua formação ideológica, tem a sua tese sobre as coisas. O que eu às vezes não concordo é que as pessoas, em vez de publicarem um fato como ele é, contra ou a favor, não importa, as pessoas colocam apenas aquilo que pensam sem se importar com o fato como ele é. Apesar de que eu acho que cada um pode ter sua opinião, cada um pode falar o que quiser.
Olá Del,
Concordo com o Alexandre. Eu não tenho o menor desejo de ler estes jornais. A nossa mídia é um desastre como fornecedora de informações. Distorce fatos e toma posições, e o pior é sem dizer que as tomou.
Tenho que ler por dever de ofício e porque não tenho quem leia para mim e me diga o que estão falando ou escrevendo.
Acho a sua posição tão preconceituosa quanto as opiniões da mídia sobre o presidente Lula. O que deveria te causar depressão é o fato de não termos conseguido até hoje construir um sistema de informação decente, com raras e honrosas exceções, no país.
O debate democrático não inclui este tipo de posição.
Querido Alexandre, vc pode ter azia quando lê jornais. Imagino que vc também fica indignado quando lê determinadas notícias. Eu também tenho essa reação. Mas, nem por isso, vc deixa de ler jornal ou espera que alguém comente com vc as notícias do dia, mesmo tendo uma agenda apertada.
Quando vc tem azia vc salta a matéria (imagino!) e lê outra, mas continua lendo. O Lula não! Justifica o não-ler com a azia e ainda culpa a concepção ideológica das pessoas. Se ele tem uma concepção formada dos articulista, basta pular os que não gosta, ora!
Se a azia continuar, a questão é médica.
Abs, Del
Minha amiga Eliana, concordo com vc sobre a mídia brasileira, mas nem por isso deixo de ler jornais. Quando posso escolho que jornal leio. Ou, pelo menos, os articulistas menos compromissados com a direita ou submisos às editorias conservadoras. Creio que todos, de uma forma ou outra, somos seletivos. Não ler é excluir e se excluir.
Tenho azia quando assisto alguns telejornais - assim não assisto. Mudo de canal e vou assistir um mais palatável.
Insisto que a minha posição não é preconceituosa, pois não há ofensa em registrar que o Presidente não lê. As reações foram: vc distorceu, não contextuou, etc. Mas, pergunto: o Lula lê? É exemplar/educativo um presidente não ler nem jornais?
No espaço democrático essas perguntas cabem.
O seu texto gerou polêmica…concordo em número e grau contigo e de maneira alguma é preconceituosa, simplesmente o Presidente não tem tempo para ler, tem problemas com excesso de letrinhas.bjs