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Arquivo de junho, 2010

A Saramago com carinho

18, junho, 2010

Sempre que entro no carro ligo o rádio para ouvir as últimas notícias. A de hoje deixou-me muito triste, ao jose-saramagosaber que o mundo perdeu um de seus maiores escritores.

Saramago proporcionou-me um dos meus maiores prazeres literários com “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, que traz um dos diálogos mais ricos da literatura, no encontro promovido entre Deus, o Diabo e Jesus. Para quem ainda não leu, sugiro que leia, pois saímos com a alma grande, por podermos olhar em outras direções. E não acaba por aí, são vários os deleites promovidos por esse grande escritor. Um dos maiores.

Além de escritor, Saramago era um humanista, alguém que se preocupava com o outro, com os outros. Pude presenciar uma cena única, que vale a pena ser comentada: Algum tempo depois do massacre de Corumbiara/RO, em 1995, onde vários camponeses e camponesas e até mesmo crianças foram violentamente atacados pela polícia e muitos morreram, foi realizado na Câmara dos Deputados, um julgamento simulado para chamar a atenção dos governantes sobre a necessidade de se fazer justiça por aquele ato de extrema violência , até porque, tudo indicava que os responsáveis ficariam impunes. Dentre pessoas defensoras dos direitos humanos convidadas, estava José Saramago e outros dois franceses.

Como se sabe, após seu país Portugal proibir a comercialização do Evangelho, Saramago exilou-se nas ilhas canárias, na Espanha. E foi de lá que saiu direto para a Câmara em Brasília.

Ao chegar, avisou para a platéia que estava muito mal humorado, por estar bastante cansado, pelo fato da viagem ser longa e desgastante. E sentou-se junto aos franceses para uma entrevista coletiva. Como havia apenas uma interprete para os dois franceses, ela estava um pouco atrapalhada. Saramago não teve dúvidas, perguntou se ela precisava de ajuda, pegou um bloquinho e uma caneta e passou a contribuir com a tradução, além de ele mesmo responder as perguntas dos/das jornalistas.

Ele deu um show de bom humor, humanidade, respeito com o outro e intransigência com as injustiças. Mostrou-se conhecedor da realidade brasileira e militante contra violações de direitos humanos.

Saramago merece todo o nosso respeito, pelas suas obras e, especialmente, pelo ser humano que era e continuará na história.

Cleomar Manhas – Assessora do Inesc

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