Será que a China está à beira do colapso?
É cada vez mais comum sugerir que além da catástrofe européia e da lenta recuperação dos Estados Unidos, a China poderia estar à beira do colapso econômico e, juntamente com ela, desapareceria o último baluarte de crescimento na economia mundial. Não apenas o centro está estagnado, mas o entorno da economia global também está muito frágil. Contudo, a probabilidade de uma desaceleração da China é altamente exagerada.
Paul Krugman, que estava certo quanto à necessidade da expansão fiscal nos Estados Unidos e à gestão errada da crise da Grécia pelo Banco Central Europeu (BCE), por exemplo, sugeriu que a China está no meio de uma bolha imobiliária que pode estourar a qualquer momento (vide também Jayati Ghosh e C. P. Chandrasekhar aqui para uma visão similar, embora mais ampla, dos perigos em 2012). Essa visão insinua que o crescimento na China depende fundamentalmente da demanda interna, mas que as bases para a expansão são frágeis. Além disso, sugere que a situação da China está muito parecida com a dos Estados Unidos antes da crise dos Lehman Brothers em setembro de 2008.
Seria uma boa ideia checar as informações antes de sair dando explicações para esse terrível cenário de fim do mundo. Primeiramente, ao analisarmos a decomposição das bases para o crescimento da China, fica muito claro que desde o início do último boom na periferia o setor externo não foi a força motriz na China, já que as importações, especialmente de commodities, cresceram muito depressa. O investimento e o consumo são, ao contrário, as fontes principais do crescimento chinês. Nesse aspecto os pessimistas têm razão: o crescimento na China é impulsionado pelas forças do mercado interno (aliás, isso torna, no mínimo, um tanto estranha a crítica de que a China não está fazendo o suficiente para resolver os chamados desequilíbrios globais).

Contribuições para o crescimento
É preciso salientar também (vide gráfico acima) que com o colapso da demanda externa durante a crise de 2007-2009, houve um aumento no investimento – que corresponde a quase 40% do PIB (nos EUA está mais perto de 15%) – para compensar a diferença. Note-se que dessa percentagem quase a metade é investimento público e uma boa parte destina-se para moradia. Vale observar que o surgimento da China como grande potência comercial, o que trouxe melhores oportunidades econômicas para países da periferia na África e na América Latina desde sua entrada para a Organização Mundial do Comércio (OMC) em dezembro de 2001, veio de mãos dadas com uma apreciação real significativa de sua moeda. Enquanto a taxa de câmbio real deflacionada pelo Índice de Preços ao Consumidor apenas oscilou (o que se ajusta às críticas de que a China não fez o suficiente para valorizar sua moeda e resolver os desequilíbrios globais), a deflacionada pelos Custos Unitários do Trabalho (ULC - Unit Labor Costs) teve uma apreciação de cerca de 100% após a Crise Asiática de 1997.

É mais, como revela o terceiro gráfico (abaixo), parece que as mudanças nos ULC acompanharam fundamentalmente as variações do salário real. Em outras palavras, a expansão do salário real, que foi um dos pilares do aumento do consumo, um componente central do crescimento da produção como observamos no primeiro gráfico, prejudicou a competitividade da China no exterior, como era de se esperar.

O investimento público e o consumo interno, as forças impulsionadoras da expansão, estão construídos sobre uma base de empréstimos estrangeiros insignificantes (as obrigações estrangeiras como parte das reservas são mínimas, uma vez que as reservas internacionais são de aproximadamente US$ 3 trilhões) e um aumento contínuo da remuneração dos trabalhadores (para ver uma tabela do crescimento do salário real nos anos 80, clique aqui). Nesse sentido, uma diferença fundamental entre o boom da China a respeito de outros booms baseados em bolhas, é que a expansão imobiliária não foi crucial para o crescimento do consumo e não parece haver qualquer problema adiante quanto à balança de pagamentos. Além do mais, a China vem atravessando um longo período de transição, de sociedade rural a sociedade urbana e industrial, o que implicaria o movimento em massa de centenas de milhões de pessoas para as cidades nas próximas décadas. Em face do tamanho e da importância do investimento público para a economia chinesa, seria no mínimo surpreendente que não houvesse qualquer investimento público na expansão de projetos habitacionais públicos. Vamos assumir, porém, que os pessimistas têm razão e que os preços imobiliários na China entrararm em colapso. Os críticos sugerem que os governos locais, que dependem muito da venda de terras, e os bancos, que deram um volume recorde de hipotecas residenciais, serão os primeiros a sofrer o impacto do colapso do mercado imobiliário. O governo será forçado a salvar os bancos e, novamente comparando a situação com a dos EUA, isso teria precedência sobre o crescimento e a criação de empregos. Entretanto, eu diria que esse cenário é muito improvável. Note-se que na China e nos EUA a dívida é denominada em moeda nacional e, como consequência, a decisão de salvar bancos e credores, ou promover o crescimento e favorecer devedores, é uma decisão política. As expansões nos EUA foram fracas (não apenas desta vez, isto já vem acontecendo há mais de 30 anos: vide aqui), e as políticas econômicas foram pró-credores (Wall Street, se preferirem) e anti-trabalhistas, contrariamente ao longo boom chinês. O crescimento (e a repressão direta da dissidência, poderíamos observar) tem sido a forma de resolver os conflitos sociais na China. E nada indica que isso mudará em 2012.
Veja este texto em inglês no Triple Crisis Blog
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