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As futuras crises da China

Patrick Bond

china_dinCom os colapsos econômicos e as calamidades ecológicas que tanto prevaleceram em 2011, ano que concluiu com uma reunião do G20 em Cannes em novembro (na qual pouco se fez) e uma conferência climática em Durban em dezembro (na qual nada se fez), o mês de janeiro começou com um grande temor da deterioração da zona do euro. Nesse contexto de incertezas se aproximam as duas forças mais potentes que darão forma ao que vem pela frente: o processo de acumulação de capital da China e a sua luta de classes.

Devido ao desenvolvimento desigual e misto desse país, dentro de um boom extraordinário podemos observar o início de um fracasso em escala potencialmente mundial, além de batalhas socioeconômicas prodigiosas originadas da base, juntamente com agressões brutais ao meio ambiente, tais como a energia a carvão e a hidrelétrica Três Gargantas (não obstante os avanços excepcionais da chamada ‘economia verde’).

Alguns observadores da China são otimistas, embora venham principalmente das instituições de Bretton Woods. Há seis semanas, o principal economista do Banco Mundial, Justin Yifu Lin, disse: “a China pode continuar seu crescimento econômico dinâmico no mínimo por 20 anos mais” e, há seis meses, a Avaliação feita pela Diretoria Executiva do Fundo Monetário Internacional notou que “as perspectivas de crescimento de curto prazo da China continuam a ser vigorosas e cada vez mais autossustentáveis, apoiadas no ajuste estrutural”. Depois de tudo, “uma recuperação abrangente já está em andamento e houve uma passagem do controle para o investimento privado enquanto o estímulo diminui.”

Receber tais elogios de Washington deveria acionar sirenes de alarme. Já o Jayati Ghosh e o CP Chandrasekhar, do blog Triplecrisis, são mais moderados: “no momento em que a bolha imobiliária na China for furada e os preços dos imóveis caírem, haverá efeitos negativos multiplicadores sobre todas as atividades relacionadas.” E na edição do mês passado do The New York Times, Paul Krugman acrescentou: “a história da China é parecida demais com as debates que já vimos em outros lugares.

Meus guias na viagem para a China do sul e central em meados de dezembro foram os professores Wen Tiejun, da Universidade de Renmin, e Lau Kin Chi, da Universidade de Lingnan. Começamos no Fórum do Sul em Hong Kong, cujo tema central refletia a perspectiva chinesa da ‘Nova Esquerda’: “acadêmicos e comentaristas da corrente predominante, conscientemente ou não ao serviço de interesses pessoais, com frequência se mostraram ansiosos demais para atribuir experiências de desenvolvimento a conceitos genéricos e reificados, como a marquetização e a globalização.”

Para desmistificar as histórias da corrente tradicional é preciso entender o poder do Estado (especialmente municipal) para dar forma à trajetória do desenvolvimento capitalista na China. Na China central, Chongqing, uma das grandes cidades com crescimento mais acelerado do mundo, desde 1997 tem um status de autogestão equivalente ao de Shangai, Beijing e Tianjin. Com sete milhões de moradores urbanos (que aumentam um milhão por ano), é aqui que a China combina melhor eficiência e equidade. O historiador Philip Huang argumenta que uma ‘Terceira Mão’ – a corporação municipal, entre socialismo e capitalismo – vem criando a extraordinária paisagem de Chongqing.

Em qualquer outro lugar da China, o grande boom imobiliário especulativo, parcialmente impulsionado pelo Estado , mais tarde, junto com investidores privados que construíram exageradamente, criou vastas cidades fantasma com dezenas de milhões de apartamentos vazios, num momento em que classe trabalhadora não tinha acesso à moradia. Ao contrário desses projetos habitacionais de preços exagerados e feitos apenas com a intenção de auferir lucros, em Chongqing estão sendo construídas 700.000 unidades públicas de baixo custo para dois milhões de pessoas em apenas sete anos. Isso é fundamental tanto para a administração da oferta de mão de obra (generosamente subsidiada pelo Estado até o ponto da reprodução) quanto para a demanda do consumidor, especialmente de eletrodomésticos e outros produtos para o lar.

Por trás disso está o modelo para os trabalhadores rurais migrantes (nonmingong), que opera de modo similar ao que os sul-africanos chamam de ‘articulações de modos de produção’: os trabalhadores (homens) nas firmas capitalistas são reproduzidos pela superexploração de gênero já que não têm os benefícios concedidos aos cidadãos urbanos e, por isso, precisam confiar o cuidado das crianças, pessoas idosas e trabalhadores doentes às mulheres das áreas rurais. Esse sistema tão parecido com o apartheid ajuda a explicar as taxas salariais persistentemente baixas da China (juntamente com uma moeda desvalorizada e controlada pelo Estado).

Um fator crucial na reorganização do espaço social e econômico de Chongqing nos últimos quatro anos é o papel desempenhado por Bo Xilai, filho de um antigo vice-premier, que possui a visão, a determinação e o poder necessários para reduzir a forte burocracia predominante. Ele sufocou os protestos, mas também fez concessões como, por exemplo, pagamentos muito maiores para as pessoas desalojadas de suas propriedades rurais, bem como moradia pública – porque até o momento os ganhos do Estado decorrentes dos crescentes preços da terra provêm o subsídio necessário.

As manifestações anuais na China são estimadas em mais de 100.000. You-Tien Hsing, geógrafo da Universidade da Califórnia, explica como o sistema pode ser desafiado a partir da base, para aumentar as compensações obtidas através de protestos sociais do tipo dos ocorridos recentemente em Wukan. “O que esse novo regime de estabilização social trouxe foi uma mudança na percepção que os cidadãos têm da justiça e dos direitos, passando a vê-los como mercadorias ou commodities (fenômeno da commodification)… Restringidos pelo espaço político limitado, na sua luta, o dinheiro se tornou o objetivo da sua luta e a medida da justiça.”

Em conclusão, me ocorre que estão surgindo cinco contradições que inclusive os melhores administradores chineses provavelmente não conseguirão superar. Primeiramente, os subsídios fluem do governo central para áreas industriais selecionadas – cerca de USD 15 bilhões anuais para Chongqing – e para o sistema de transporte, mas poderão continuar?

Em segundo lugar, os superávits obtidos pelo proletariado – que na China são extraordinariamente altos, porque os custos de reprodução são repassados dos migrantes para as mulheres – podem não ser facilmente concretizados ao exportar para os instáveis mercados mundiais. (A parte de Chongqing é de USD 30 bilhões por ano.) Será que o modelo pode se afastar com a rapidez suficiente da dependência do comércio exterior?

Terceiro, a dialética estrutura/luta significa que do topo, por um lado, a liderança sóciopolítica de figuras como Bo Xilai é incomum, e que exigiu um ataque ininterrupto contra os fortes elementos mafiosos de Chongqing – mas quão replicável é essa liderança? E por outro lado, da base, continua a agitação social em massa por parte de camponeses e trabalhadores – mas será que vai além das expressões de descontentamento e represálias atuais e localizadas?

Em quarto lugar, a louca especulação de propriedades imóveis requerida para o constante aumento da receita municipal agora parece haver atingido o ponto máximo, ameaçando inclusive o modelo de Chongqing.

Em quinto lugar, a sustentabilidade em termos ecológicos está fracassando, com a séria contaminação do ar e da terra, a mudança climática e a escassez de água. Além dos trens rápidos, a plantação massiva de árvores e a grande produção de painéis solares, o modelo de acumulação ocidental mais amplo de combustíveis fósseis precisa ser questionado.

As extraordinárias conquistas possibilitadas por um Estado forte que domina a acumulação de capital poderiam não resistir a tais contradições. Em face dos problemas do topo e das turbulências da base, já passou a hora de que a Nova Esquerda emergente na China dimensione as críticas e tire suas próprias conclusões.

Veja este texto em inglês no Triple Crisis Blog

O Inesc estabeleceu uma parceria com o Triple Crisis Blog – espaço online que discute as perspectivas globais sobre as crises econômica, ambiental e do desenvolvimento. O Blog foi criado para provocar na população uma discussão aberta sobre tais problemas mundiais e reúne uma rede de especialistas que tratam de assuntos relacionados às três crises. A intenção é desenvolver debates e análises sobre o atual cenário global e apresentar soluções possíveis de serem realizadas coletivamente. Além da população, o Triple Blog pretende impactar também a esfera política.

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