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Matéria da TV Câmara sobre a revista Descolad@s

16, dezembro, 2010

Aposta no obscurantismo

10, outubro, 2010

Atila Roque

A campanha presidencial desandou neste segundo turno por um caminho de alto risco para o futuro da democracia e da política no Brasil. Ao colocar o tema do aborto na agenda eleitoral, pelas vias de um fundamentalismo religioso retrógado e agressivo às mulheres, a candidatura de José Serra fez o debate pender para as chamadas “batalhas culturais” que caracterizam, por exemplo, a vida política recente nos Estados Unidos. Infelizmente, aceitando a provocação, a candidata Dilma Rousseff deu a sua contribuição para a moralização conservadora da política, com o agravante de soar hipócrita, como ela mesmo alertou, devido a posições mais liberais assumidas no passado.

Esse é um movimento que pode vir a influenciar negativamente o chamado “voto religioso” no Brasil, que tem a chance de assumir um peso que até então nunca teve nos processos eleitorais anteriores, já tendo contribuído para levar as eleições para o segundo turno com os votos em Marina Silva. A colocação no centro do debate - pela via moralizante e não a partir de uma perspectiva de direitos fundamentais - de temas como o aborto ou o casamento gay, turva o debate público e favorece uma galvanização eleitoral de inspiração religiosa em uma escala inédita na sociedade brasileira.

Os estudos realizados das votações ocorridas desde a democratização, em particular para a presidência da república, demonstram que o “voto religioso” (não apenas evangélicos, mas também católicos) nunca foi o principal fator de definição dos resultados, ainda que o peso da “bancada parlamentar evangélica” influencie cada vez mais a dinâmica de votações no Congresso. No entanto, nas escolhas de candidaturas executivas, outros fatores historicamente tiveram maior importância. As expectativas em relação às questões objetivas de vida (emprego, renda, saúde, educação, segurança etc) sempre pesaram mais na hora de votar.

Corremos o risco, portanto, de ver isso mudar para pior nessas eleições. A maneira absurda como a discussão sobre o aborto entrou no debate não ajuda a lançar luz sobre o fundamental, ou seja, o direito das mulheres decidirem sobre uma questão que as atinge diretamente e que produz sofrimento, dor e morte materna em uma escala imoral, conforme demonstra pesquisa publicada hoje no jornal O Globo (10/10/2010).

Até mesmo o debate mais moderado sobre a descriminalização do aborto e sobre a abordagem do tema a partir de uma perspectiva de saúde pública, se encontra bloqueado pelo oportunismo eleitoral. Essa era até agora a posição defendida pela candidata Dilma e pelo PT, perfeitamente defensável diante da gravidade do problema sobre a vida das mulheres.

Com isso as forças políticas em disputa parecem ter optado por alimentar o obscurantismo e o fundamentalismo religioso, invés de apostar na inteligência política das pessoas. Perde-se também a oportunidade de reafirmar a natureza laica do estado republicano. As cartas estão na mesa e o futuro dirá o preço que teremos que pagar por essa escolha.

Atila Roque aborto, democracia, direitos humanos, eleições, fundamentalismo, mulheres, saúde

O passado como pesadelo

7, abril, 2010

O título é uma criação perfeita de Zuenir Ventura, no O Globo de hoje, para a coluna em que comenta a entrevista do General Leônidas Pires Gonçalves, concedida a Globo News. A entrevista pode ser asssistida abaixo.

O General foi chefe do DOI-Codi do Exército no Rio de Janeiro (1974-1977), comandante do Comando Militar da Amazônia (CMA) e do Comando Militar do Sul (CMS). Após a eleição indireta de Tancredo Neves, foi escolhido para ser o seu ministro do Exército, função que exerceu durante a Presidência de Sarney (1985-1989).

A entrevista é chocante pela franqueza e tranquilidade com a qual defende e sustenta as barbaridades da ditadura. Esperemos que as idéias do General e de tantos outros civis e militares permaneçam para sempre como parte dos nossos piores pesadelos.

No próximo sábado vai ao ar a entrevista com o General Newton Cruz, ex- Chefe do Serviço Nacional de Informações, o famigerado SNI.

Atila Roque direitos humanos, política

Arruda, o dia seguinte

19, fevereiro, 2010

Anda difícil nos dias de hoje não desandar a falar mal da política e dos políticos. Mais difícil ainda se vivemos em Brasília, tão perto do poder e, alguns otimistas diriam, tão longe do Brasil, esquecendo que, talvez, aqui esteja a sua melhor tradução.

Nota-se que não ando no time dos otimistas, o que tem me  poupado algumas decepções. Afinal, como diz o ditado, quando menos se espera nada acontece. E tenho esperado cada vez menos dos partidos e dos políticos profissionais. Digo isso com a amargura de quem continua achando que a democracia é o melhor utopia disponível e que ela não existe sem representação, ou seja, sem partidos e políticos eleitos.

Fico, então, dando trato às bolas para tentar extrair coisas positivas do escândalo envolvendo o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda. O que um personagem tão lamentável pode nos trazer de bom?

Arruda e a crise institucional que a cada dia toma formas mais dantescas em Brasília são sim a cara do Brasil. Um país desigual e excludente. Onde proliferam dizeres populares cheios de uma sabedoria a um só tempo cínica e irônica, como o “manda quem pode, obedece quem tem juízo” ou “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”.

A cara de um país onde os que têm poder, qualquer poder, habituam-se rapidamente a exercê-lo com fins privados. E o pior, em muitos momentos na história republicana, com o beneplácito e até simpatia de cidadãos carentes de cidadania.

A corrupção e os abusos do governo Arruda não consistem novidade na crônica política de Brasília. A autonomia e o direito de eleger os seus representantes recentemente conquistados pela nova capital foram capturados em tempo recorde pelo o que de pior existe na tradição política brasileira. Mas talvez nunca tenham se revelado de maneira tão completa e despudorada quanto nos episódios filmados e relatados nos últimos meses. O baque tem sido grande mesmo entre aqueles cansados e saturados pelos sucessivos escândalos que logo voltam a cair no poço sem fundo do “esquecimento”  e da impunidade.

Pode ser que o choque de ver um governador preso  e todos na linha sucessória sob suspeita, com a possibilidade de uma intervenção federal – enorme ironia em se tratando do Distrito Federal -, coloque-nos em um outro patamar.  Pelo menos a coragem, a energia e a beleza com as quais os estudantes de Brasília expressaram a sua revolta parecem revelar uma vitalidade cidadã que persiste e cresce entre os jovens. Talvez estejamos a viver momentos de ruptura, como foram no passado aqueles que superaram a ditadura e nos derem um marco constitucional do qual ainda podemos nos orgulhar. Pois é, pode ser…

(Atila Roque)

Atila Roque democracia, política

Lula desqualifica rádios comunitárias na abertura da Confecom

15, dezembro, 2009

Em discurso na abertura da I Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), que só foi convocada por pressão dos movimentos sociais, o presidente Lula se mostrou um profundo desconhecedor do significado das rádios comunitárias.

Após exibir o seu deslumbramento com as possibilidades das novas tecnologias digitais para a comunicação, Lula disse que as rádios comunitárias estão nas mãos de políticos, desqualificando a luta histórica desse movimento em busca de democratização na comunicação.

O discurso de Lula desresponsabiliza o Estado no seu papel de fiscalizador, se tem rádios comunitárias ( e não são só as comunitárias) que estão nas mãos de políticos o Estado tem o poder de fiscalizar para que isso não ocorra.

Celso Schoreder, presidente do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, lembrou que a luta pela democratização tem um herói, o gaúcho Daniel Herz. “A sociedade pavimentou o caminho até aqui”, disse Celso, que chamou os filhos de Herz para uma homenagem póstuma. Ele defendeu o fim da criminalização das Rádios Comunitárias e disse que o Brasil não pode mais admitir que a liberdade de expressão seja apenas para alguns setores da sociedade.

O presidente foi aplaudido ao dizer que lastimava a ausência de setores empresariais que não vieram à conferência com medo da discussão. Já o Ministro Hélio Costa e o presidente do Grupo Bandeirantes, Jonny Saad, foram vaiados por parte da plenária…

Movimentos sociais em conflito

Depois da abertura solene ocorreu uma plenária dos movimentos sociais. A reunião mostrou a fragilidade do entendimento entre as organizações, que se acusaram mutuamente, principalmente, por algumas aceitarem as condições do empresariado para a conferência. Ativistas do Intervozes e de outros setores mais autônomos acusaram a CUT, FENAJ, FITTERT e ABRAÇO de cederem e “trairem” os demais movimentos, ao aceitarem novo acordo com governo e empresários que determina o quórum qualificado e a adoção de “temas sensíveis” também nos GTs, que iniciam hoje à tarde. Várias entidades abandonaram a plenária antes do final.

A primeira conferência de comunicação não podia ter começado pior.

(José Antonio Moroni)

Atila Roque comunicação, democracia