A indústria das florestas emerge como ervas daninha nas legislações nacionais e internacionais. Sem critérios ou marco legal as experiências se propagam sustentadas pelas empresas de celulose, papel, bioenergia, mobiliário, minério e setores financeiros. As florestas plantadas de pinus, eucalipto e outras espécies exóticas avançam substituindo as matas nativas e originárias.
A notoriedade que os projetos de pagamentos de serviços ambientais ganharam entre os parlamentares, em especial sobre os senadores, expressa o poder da indústria das florestas. O argumento econômico, a valorização do espaço plantado e o suposto ganho por parte do proprietário é decisivo. O perigo é que este discurso transita do grande empresário para o pequeno proprietário com a fluidez ideológica que marca o debate de alteração do Código Florestal.
No debate a importância dos biomas para a vida ambiental e a biodiversidade das florestas nativas e originárias é citada como um fato natural que deve ser preservado. A idéia da riqueza natural submete-se a idéia da preservação do natural, expressando uma posição cientificista. Não se nega a possibilidade de projetos de pagamentos de serviços ambientais em áreas destinadas e de proteção permanente, mas sabe-se que os custos destes projetos são praticamente impeditivos.
As florestas plantadas ou empresariais devem, ao longo dos anos, terem as áreas aumentadas para cobrir os custos operacionais dos projetos e atender demanda do mercado. O debate de redução de emissões por desmatamento e degradação (REDD) está no mesmo caminho. Conforme o IBGE/2010, as indústrias extrativa e a de transformação emitem cerca de 99% em relação aos outros setores da economia. Nem o mundo ou a comunidade internacional acredita que serão as florestas em pé que irão reduzir as taxas de carbono, de dióxido de carbono, de óxido nitroso, metano, entre e outros gases estufas emitidos pela sociedade industrial pós-moderna.
Mesmo assim, a Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas (ABRAF[1]) ressalta em seu Anuário Estatístico 2011, que “As mudanças climáticas, a pressão sobre as florestas nativas e as gerações futuras cobram respostas. E as florestas plantadas brasileiras têm uma resposta verde para a economia mundial”.
O Centro Internacional de Investigação Florestal (CIFOR[2]) analisou 245 artigos de redução das emissões publicados entre 2005 e 2009 na Folha de São Paulo, O Globo, O Estado de São Paulo e Valor Econômico e identificaram que apenas 10 fontes concentraram cerca de 30% das citações. O estudo demonstra como o debate de REDD e de serviços ambientais, além de isolar os povos indígenas e os tradicionais, ainda está longe de ser um tema da agenda social, acadêmica, política e com pouco reflexo na esfera pública.
O CIFOR assinala, por fim, que os meios de comunicação enfatizam temas econômicos e de elaboração de políticas públicas, sem considerar assuntos mais relacionados com a implementação prática de REDD. O estudo complementa que “a larga tradição de impunidade que a região amazônica tem sobre delitos ambientais e violações aos diretos humanos, especialmente contra quem luta para manter a mata em pé, confirma tragicamente como a Amazônia está longe da agenda pública, pese a retórica otimista dos meios que parecem lhe dar um lugar proeminente”.
As visões empresariais que desconsideram a ameaça das mudanças climáticas globais como um fato real, e que não visualizam outras opções de empreendimento, são as que teimam em se comportar como se o planeta não estivesse em risco. Como se, em algumas décadas, o mapa geoagrícola e geopolítico não pudesse ser alterado a partir da insistência de continuarmos executando políticas que não buscam superar as ameaças ambientais.
Desta forma, infelizmente, vão votar os senadores nas propostas que alteram o Código Florestal. É mínima a margem de novos acertos que poderão ser realizados na Comissão de Meio Ambiente (CMA). O relator-senador Jorge Viana (PT-AC), herdeiro de um texto Frankenstein e retrógrado, vai arcar com o ônus de todo o processo de negociação realizado pelo relator senador Luiz Henrique (PMDB-SC). Por melhor negociador que possa ser não escapará da armadilha urdida pela Bancada Ruralista, que estrategicamente se ausentou dos debates públicos.
As organizações da sociedade civil promovem audiências públicas nas comissões do Senado, emitem relatórios científicos, documentos de posição e proposição frente ao substitutivo, mas não conseguem transpor a barreira do discurso econômico-ideológico que foi construído no Congresso Nacional. Apoiados por uma minoria de parlamentares, e sem apoio do governo, não ampliam o debate. Motivados pela indignação os representantes sociais continuam denunciando no texto os males que advirão no futuro. Um alerta que não encontra eco na mídia nacional. Compreensível
Edélcio Vigna, assessor do Inesc
Edélcio Vigna Sem categoria Código Florestal, Edelcio, REDD