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Aposta no obscurantismo

10, outubro, 2010

Atila Roque

A campanha presidencial desandou neste segundo turno por um caminho de alto risco para o futuro da democracia e da política no Brasil. Ao colocar o tema do aborto na agenda eleitoral, pelas vias de um fundamentalismo religioso retrógado e agressivo às mulheres, a candidatura de José Serra fez o debate pender para as chamadas “batalhas culturais” que caracterizam, por exemplo, a vida política recente nos Estados Unidos. Infelizmente, aceitando a provocação, a candidata Dilma Rousseff deu a sua contribuição para a moralização conservadora da política, com o agravante de soar hipócrita, como ela mesmo alertou, devido a posições mais liberais assumidas no passado.

Esse é um movimento que pode vir a influenciar negativamente o chamado “voto religioso” no Brasil, que tem a chance de assumir um peso que até então nunca teve nos processos eleitorais anteriores, já tendo contribuído para levar as eleições para o segundo turno com os votos em Marina Silva. A colocação no centro do debate – pela via moralizante e não a partir de uma perspectiva de direitos fundamentais – de temas como o aborto ou o casamento gay, turva o debate público e favorece uma galvanização eleitoral de inspiração religiosa em uma escala inédita na sociedade brasileira.

Os estudos realizados das votações ocorridas desde a democratização, em particular para a presidência da república, demonstram que o “voto religioso” (não apenas evangélicos, mas também católicos) nunca foi o principal fator de definição dos resultados, ainda que o peso da “bancada parlamentar evangélica” influencie cada vez mais a dinâmica de votações no Congresso. No entanto, nas escolhas de candidaturas executivas, outros fatores historicamente tiveram maior importância. As expectativas em relação às questões objetivas de vida (emprego, renda, saúde, educação, segurança etc) sempre pesaram mais na hora de votar.

Corremos o risco, portanto, de ver isso mudar para pior nessas eleições. A maneira absurda como a discussão sobre o aborto entrou no debate não ajuda a lançar luz sobre o fundamental, ou seja, o direito das mulheres decidirem sobre uma questão que as atinge diretamente e que produz sofrimento, dor e morte materna em uma escala imoral, conforme demonstra pesquisa publicada hoje no jornal O Globo (10/10/2010).

Até mesmo o debate mais moderado sobre a descriminalização do aborto e sobre a abordagem do tema a partir de uma perspectiva de saúde pública, se encontra bloqueado pelo oportunismo eleitoral. Essa era até agora a posição defendida pela candidata Dilma e pelo PT, perfeitamente defensável diante da gravidade do problema sobre a vida das mulheres.

Com isso as forças políticas em disputa parecem ter optado por alimentar o obscurantismo e o fundamentalismo religioso, invés de apostar na inteligência política das pessoas. Perde-se também a oportunidade de reafirmar a natureza laica do estado republicano. As cartas estão na mesa e o futuro dirá o preço que teremos que pagar por essa escolha.

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A Igreja Talibã mostra a sua cara

8, março, 2009

A combinação da ausência de compaixão com o fundamentalismo religioso produziu, às vésperas do Dia Internacional da Mulher, uma das mais grotescas manifestações a respeito da tragédia que se abateu sobre uma menina de 09 anos em Pernambuco, grávida após ser repetidas vezes estuprada pelo padrasto. A declaração do arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho – justificando a espantosa excomunhão dos médicos, da mãe e de todos os envolvidos no mero cumprimento da lei e na preservação da vida da menina, mas não do padrasto – de que “o aborto é mais grave do que o estupro” superou as expectativas mesmo daqueles que já não se espantam com mais nada.  Declaração acompanhada de manifestações de apoio da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos) e do Vaticano…

Não consigo experimentar outro sentimento a não ser nojo e desprezo por essa Igreja que nada tem a ver com as melhores tradições cristãs. A burrice, o poder e um pretenso monopólio sobre os dogmas da fé, ao longo da história, sempre produziram e continuam a produzir barbaridades. Custei a acreditar no veredicto do bispo que ocupa hoje um território que já foi de Dom Helder Câmara. As mulheres, as meninas, as jovens que sofrem cotidianamente com a violência  dos homens –  estupradas, espancadas, trancadas em casa, discriminadas no mercado de trabalho e, especialmente a vítima de 9 anos, mereciam no mínimo, a solidariedade da Igreja diante de tamanha tragédia. Mas se isso era pedir demais, o silêncio seria suficiente.

Disso tudo restou como uma luz no fim do túnel a coragem e a dignidade dos médicos e da justiça que rapidamente cumpriram a lei e protegeram quem deveria ser protegida.  Louve-se também a pronta reação do Presidente e do Ministro da Saúde, assim como as posições quase unânime dos comentaristas da grande imprensa em condenar o bispo inquisidor, pronto a  jogar na fogueira todos nós, inclusive os que, como eu, não dou a mínima para o que a Igreja Católica pensa ou deixa de pensar no campo religioso. Mas que tenho tudo a ver quando se metem nos assuntos públicos.

Viva as mulheres e os seus direitos nesse 08 de março marcado por tanta dor, tristeza e intolerância.

Atila Roque

(Este post foi publicado simultaneamente no Blog do Inesc e no Opinativas – como expressão nada mais nada menos da minha própria opinião)

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