O direito à Educação de Qualidade
Márcia Acioli
Fomos (duas assessoras do Inesc e uma adolescente monitora) ao Centro de Ensino Fundamental Carlos Motta (Lago Oeste) fazer a nossa primeira oficina do ano sobre O Direito à Educação de Qualidade. Mais uma vez percebemos @s menin@s (principalmente eles) desprovidos de agressividade. É impressionante o que um contexto produz em termos de relações humanas, de cultura. Também observamos que nos contextos mais pobres não se fala em qualidade de educação como uma possibilidade de ingresso nas universidades públicas, tema que foi importante para os alunos do Cean quando fizemos essa oficina por lá. Comentamos entre nós que parece que quando os filhos chegam ao Ensino Médio, chegaram ao topo da carreira, uma vez que os pais, em geral, têm pouca escolaridade.
Então soa como ”destino”… Quem pensa diferente e quer ingressar em uma universidade pública é um ET. É estranho… e temos que romper com essa lógica, pois percebemos que os professores também se adaptam a esse contexto e não se preocupam em promover a educação adequada para aquela disputa. Nessas condições o Ensino Médio não prepara para os concursos vestibulares, como também não prepara para uma profissão técnica.
Na oficina, os/as adolescentes falaram da importância de se apropriarem do espaço da cidade como o direito de conhecer o DF, os espaços que chamaram de turísticos, mas que pretendemos retomar mostrando serem também espaços de poder, como o Congresso Nacional. Assunto tocado pelo Moroni em entrevista e pelos jovens do Movimento Passe Livre.
Sabemos também que o percentual de ingresso na UnB depende do empenho da escola. No Guará, que recebe filhos/as de catadores, nem se fala em vestibular. Os/as alunos/as não lembram em que ano o último passou para a UnB. O estranho é que todos os professores/as entram pelo mesmo concurso. O Setor Leste aprovou 4 para MEDICINA em um só ano (uma amiga que dá aula lá me informou). Quando trabalhei no Marista vi que os/as mesmos/as professores/as que estavam lá comigo davam aula na escola pública como emprego principal. Um grupo desses professores, determinados a fazer diferente, se reuniu para fazer uma escola pública “modelo”. A iniciativa foi interessante e resultou no que hoje é o Setor Leste. O problema é que há mais de 600 escolas públicas e todas deveriam ter o mesmo tratamento como “escola diferente”. Cada uma como a melhor escola para a sua comunidade. Parece um raciocínio simples, mas há muitos fatores que estimulam ou desestimulam essa escola “diferente e melhor do mundo para Samambaia, por exemplo”.
É fácil observar a crueldade que há na desigualdade social como destinos pretederminados para a exclusão. Temos que evidenciar isso sem assustar. Pretendemos retomar a discussão na próxima oficina. Creio que a gente também pode revelar isso na pesquisa que farão na escola sobre educação de qualidade. Já constatamos algumas coisas complicadoras como o discurso do diretor dizendo que alunos não podem conhecer mais do que determinado ponto do orçamento da escola, por exemplo. Os limites impostos pelas equipes diretoras afastam os/as adolescentes do compromisso com o ambiente escolar.
Enfim, constatamos que temos um desafio imenso pela frente, o de provocar mudanças a partir de uma reflexão ampla e coletiva sobre o universo de cada escola e o da educação pública. Não pode ficar de fora do debate nenhum segmento, sobretudo o dos estudantes, uma vez que a escola existe em sua função, e, estranhamente, é o segmento menos ouvido e considerado. Entendemos que os meninos e as meninas das escolas públicas devem ficar livres para pensar, sonhar e lutar pela escola que se deseja, entendendo, sobretudo, o papel da escola na transformação das relações sociais.

Cleomar Manhas*
Cleo Manhas