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O direito à Educação de Qualidade

23, abril, 2010

Márcia Acioli

dsc09386Fomos (duas assessoras do Inesc e uma adolescente monitora) ao Centro de Ensino Fundamental Carlos Motta (Lago Oeste) fazer a nossa primeira oficina do ano sobre O Direito à Educação de Qualidade. Mais uma vez percebemos @s menin@s (principalmente eles) desprovidos de agressividade. É impressionante o que um contexto produz em termos de relações humanas, de cultura. Também observamos que nos contextos mais pobres não se fala em qualidade de educação como uma possibilidade de ingresso nas universidades públicas, tema que foi importante para os alunos do Cean quando fizemos essa oficina por lá. Comentamos entre nós que parece que quando os filhos chegam ao Ensino Médio, chegaram ao topo da carreira, uma vez que os pais, em geral, têm pouca escolaridade.

Então soa como “destino”… Quem pensa diferente e quer ingressar em uma universidade pública é um ET. É estranho… e temos que romper com essa lógica, pois percebemos que os professores também se adaptam a esse contexto e não se preocupam em promover a educação adequada para aquela disputa. Nessas condições o Ensino Médio não prepara para os concursos vestibulares, como também não prepara para uma profissão técnica.

Na oficina, os/as adolescentes falaram da importância de se apropriarem do espaço da cidade como o direito de conhecer o DF, os espaços que chamaram de turísticos, mas que pretendemos retomar mostrando serem também espaços de poder, como o Congresso Nacional. Assunto tocado pelo Moroni em entrevista e pelos jovens do Movimento Passe Livre.

Sabemos também que o percentual de ingresso na UnB depende do empenho da escola. No Guará, que recebe filhos/as de catadores, nem se fala em vestibular. Os/as alunos/as não lembram em que ano o último passou para a UnB. O estranho é que todos os professores/as entram pelo mesmo concurso. O Setor Leste aprovou 4 para MEDICINA em um só ano (uma amiga que dá aula lá me informou). Quando trabalhei no Marista vi que os/as mesmos/as professores/as que estavam lá comigo davam aula na escola pública como emprego principal. Um grupo desses professores, determinados a fazer diferente, se reuniu para fazer uma escola pública “modelo”. A iniciativa foi interessante e resultou no que hoje é o Setor Leste. O problema é que há mais de 600 escolas públicas e todas deveriam ter o mesmo tratamento como “escola diferente”. Cada uma como a melhor escola para a sua comunidade. Parece um raciocínio simples, mas há muitos fatores que estimulam ou desestimulam essa escola “diferente e melhor do mundo para Samambaia, por exemplo”.

É fácil observar a crueldade que há na desigualdade social como destinos pretederminados para a exclusão. Temos que evidenciar isso sem assustar. Pretendemos retomar a discussão na próxima oficina. Creio que a gente também pode revelar isso na pesquisa que farão na escola sobre educação de qualidade. Já constatamos algumas coisas complicadoras como o discurso do diretor dizendo que alunos não podem conhecer mais do que determinado ponto do orçamento da escola, por exemplo. Os limites impostos pelas equipes diretoras afastam os/as adolescentes do compromisso com o ambiente escolar.

Enfim, constatamos que temos um desafio imenso pela frente, o de provocar mudanças a partir de uma reflexão ampla e coletiva sobre o universo de cada escola e o da educação pública. Não pode ficar de fora do debate nenhum segmento, sobretudo o dos estudantes, uma vez que a escola existe em sua função, e, estranhamente, é o segmento menos ouvido e considerado. Entendemos que os meninos e as meninas das escolas públicas devem ficar livres para pensar, sonhar e lutar pela escola que se deseja, entendendo, sobretudo, o papel da escola na transformação das relações sociais.

educação

A escola e o muro

30, maio, 2009

Cleomar Manhas*


Acabo de assistir ao filme “Entre os Muros da Escola”, do diretor francês Laurent Cantet, que relata um período letivo em uma sala de sétima série, de uma escola pública francesa, onde dividem o mesmo espaço adolescentes  das Antilhas; de vários países da África tais como Mali, Marrocos, Costa do Marfim; da China, dentre outros tantos lugares do mundo. A realidade vivida nesse espaço não deixa de ser um microcosmo do momento vivido pela França e por vários outros países europeus.

Os conflitos próprios da adolescência concorrem com conflitos de identidade, em confronto com uma tradição educacional presa a pressupostos disciplinares que não dão conta das contradições vivenciadas pelas inúmeras identidades, que não se somam, ao contrário, vivem um conflito sem fim.

O personagem central é o professor de francês que possui sensibilidade e quer fazer a diferença. Procura acolher ao invés de descartar, como os outros professores, mas não dá conta de todas as idiossincrasias e de tudo que está para além dos “muros da escola”. Talvez aí resida uma das questões problemáticas, os muros. A escola é uma instituição que se permitiu mudar muito pouco ao longo dos séculos. Ela continua atrás de muros altos e dificilmente acolhe as diferenças, fazendo com que os enunciados que afetam a superfície plana não sejam expostos ao diálogo verdadeiro e promotor de consensos e resolução de conflitos.

O que está estampado no filme é exatamente a incapacidade de esta instituição abarcar todas as demandas que a permeiam. No caso em tela, os problemas causados desde o processo de colonização, quando os países europeus saíram com seus navios em busca de ampliação dos seus poderes, dominando povos, apropriando-se de terras e riquezas de além mar. Escravizaram, colonizaram, catequizaram, expropriaram identidades impondo a cultura eurocêntrica e quando esses povos inverteram o sentido da viagem eles não os acolheram, ao contrário, passaram a vê-los como  problema a ser extirpado, tratando-os  como cidadãos de segunda, terceira categoria.

Aquela escola retrata essa forma de acolhê-los, confinando-nos e colocando-os distantes dos verdadeiros cidadãos de primeira classe. Como a escola continua fechada em si mesma, não consegue e não quer ver o que existe para além dos muros. As infinitas vidas, diferentes, carentes de direitos, usurpadas e vítimas das várias globalizações. Isso é um caldeirão prestes a explodir.

A educação, por sua vez, não se libertou do paradigma positivista e sua racionalidade instrumental e econômica. Além de impor uma visão fragmentada sobre a vida e o conhecimento.
Precisamos da contrapartida, que seria uma percepção holística e integral do mundo, com uma postura ética, responsável e solidária.

Necessitamos urgentemente de mudanças no modelo vigente, que  valoriza comportamentos consumistas, passividade política, excesso de informação sem visão processual e crítica e, por incrível que pareça,  a falta de comunicação que possibilite o amadurecimento da democracia, além da perda da dimensão histórica do ser humano devido a aceleração do tempo presente.

E que as escolas derrubem seus muros e venham interagir com as comunidades, pois o medo não pode superar a solidariedade e a necessidade de construção de novos comportamentos e relações, pautados pelo respeito, pelo acolhimento e pela liberdade.

* Assessora do Inesc para promoção dos direitos da Criança e do Adolescente

Assista abaixo um trecho do filme:

cultura e política, educação

E a educação popular…

8, fevereiro, 2009

Cleo Manhas

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Na última semana assistimos a cobertura da mídia aos Fóruns Social Mundial em Belém e Econômico em Davos e algumas considerações precisam ser feitas.

Sempre que os telejornais se referiam ao Fórum de Davos mostravam algum “especialista” falando a respeito do assunto tratado, ou seja, foi dado voz àquele evento. Ao contrário, ao referirem-se ao Fórum Social Mundial, apenas mostravam cenas, de maneira folclórica e a voz era sempre dos telejornais, que sempre falavam pelo Fórum.

Apesar de mostrar o esvaziamento do Fórum Econômico em Davos, causado pela grave crise que estamos atravessando, não desafiaram aquele já desmoralizado Fórum, pois deram voz ao evento, até mesmo para explicar a crise e receitar remédios para ela.

E continuavam a mostrar imagens dos acampamentos, namoros nos acampamentos, comércio nos acampamentos, com o título: “Apesar de lutarem por um outro mundo, os participantes do Fórum Social Mundial aproveitam este mundo”.

Não fosse o trabalho das mídias alternativas, não teríamos acesso aos temas, diálogos, polêmicas e conteúdos produzidos pelos milhares de participantes, de todas as partes do mundo, que estão pensando e agindo por um mundo diferente, onde haja, até mesmo, verdadeira liberdade de imprensa, com veículos desprovidos de preconceitos e idéias pertencentes aos grupos hegemônicos.

Essa cobertura enviesada e tendenciosa da grande imprensa a respeito do Fórum Social Mundial recordou-me outro eterno preconceito, que permeia nossas interações sociais, acerca da educação popular.

Sempre que falamos a seu respeito tendemos a retratá-la pelo seu negativo, ou seja, pelo que ela não é: não escolarizada, que se contrapõe à proposta hegemônica de educação; e não pelo que de fato propõe, ou seja, uma educação que se quer emancipadora, porém, emancipação com. Com a comunidade à qual cada um pertença, com sua diversidade e identidade, não a emancipação proposta pela modernidade, especialmente por Habermas, que a vê como a emancipação do indivíduo.

O fato de a educação popular suscitar preconceitos não nos espanta, visto que desde a chegada dos portugueses em terras brasileiras a educação ficou a cargo de um grupo elitista que tenta, até hoje, impor seu padrão único. Além disso, Paulo Freire quando pensou em sua educação libertária, em contraponto à educação bancária, estava justamente se opondo ao modelo vigente.

Não que a educação popular deva suplantar a escola, ao contrário, como no sonho fomentado pelas idéias freireanas, ela permite que cultivemos a utopia de que a educação escolarizada um dia se realize como uma verdadeira educação popular, respeitando e permitindo que a diversidade permeie as relações intramuros.

Do contrário, vingará sempre a sensação amedrontada exibida muitas vezes pela sociedade e pelo Estado acerca do protagonismo ameaçador que nossa cultura vê nos setores populares. Isso sem contar com o preconceito, também arraigado, sobre tudo que é chamado de popular, pois está se contrapondo ao erudito, que é respeitado por estar relacionado, também, à cultura de elite.

Há ainda o fato de nossa formação histórica ser conservadora e autoritária. E uma educação que se propõe emancipadora, prevê o respeito ao conhecimento prévio das pessoas, além da problematização de conteúdos; bem mais complicado que instituir um currículo único, pensado e formulado de maneira centralizada e distribuído para ser executado, especialmente, em um país de dimensões continentais como o nosso, pleno de desigualdades e diversidades.

Além disso, não nos parece simples que a proposta de educação hegemônica aceite como legítimas as diversas formas de educação popular, organizadas ou não, que se desenvolvem em diversos lugares. Como o hip hop, o funk, as organizações de agricultores familiares, o MST, as diversas organizações comunitárias que se desenvolvem nas periferias das cidades, entre outras.  Especialmente, porque elas estão se contrapondo ao modelo em vigor, estão propondo mudanças e novas abordagens, buscando outros espaços, que, caso conquistados, restringirão os espaços hegemônicos.

Esse talvez seja o principal motivo pelo qual a academia tem dificuldades em aceitar a educação popular como educação. Mesmo em suas faculdades de educação teimam em não abrir espaços para pesquisas relacionadas aos movimentos populares, pois ao pesquisá-los terão de reconhecê-los. O que impedirá que continuemos com a postura avestruz (não vejo, então não existe), que consolida o modelo escolar vigente como o único.

cultura e política, educação