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Cândido Grzybowski avalia o FSM2009

11, fevereiro, 2009

Por Jamile Chequer

(Entrevista publicada originalmente no Portal Ibase, em 06/02/2008)*

De volta ao Brasil, o Fórum Social Mundial 2009 teve como foco a Amazônia e sua importante diversidade. Em Belém, o FSM é revigorado com a força dos movimentos sociais, a receptividade do povo e a chuva equatorial que nos lembra, todos os dias, o quanto esse território deve ser abraçado e preservado. Em entrevista, o diretor do Ibase, Cândido Grzybowski faz avaliação política do processo FSM que está em seu nono ano.

Ibase – O Fórum Social Mundial voltou ao Brasil, onde não acontecia como evento central desde 2005. Que aspectos de amadurecimento do processo FSM você pode destacar?

Cândido Grzybowski - Ele voltou a um Brasil expandido e não apenas ao Brasil, mas à Amazônia que é compartida por nove Estados. Embora estejamos em uma cidade brasileira, o sentido desse FSM é a própria Amazônia. Como sempre a cidade tem um poder irradiador. É em Belém que se irradia o Fórum.

Ainda é cedo pra perceber, mas olhando o processo Fórum, temos uma escolha, que é a Amazônia, que se revelou extremamente oportuna, associada ainda com a crise e o vazio que ela deixa. Então você ocupa um espaço vazio com elementos novos por causa da Amazônia, entram as questões de justiça ambiental, ecologia, terra, território. Este FSM não discutiu tanto as soluções financeiras, mas sim o que está por trás do modelo de desenvolvimento aplicado.

Uma marca em nosso processo é quando o Fórum Econômico em Davos caminha para baixo e nós, para cima. Enquanto eles estão em um velório, nós estamos em uma celebração. Isso ajudou nesse contexto, esse é um primeiro elemento que eu destacaria. O segundo é que nós afirmamos a diversidade, mas de fato ela é muito maior do que se representa no Fórum. O FSM destaca algumas diversidades, que apontam para outras ainda maiores.

Ibase – Quais seriam elas?

Cândido – Ribeirinhos, Indígenas, amazônidas comuns, caboclos, quilombolas que estão envolvidos em movimentos e a sua vida. Não é verdade dizer que a Amazônia é vazia. Isso dá um enraizamento enorme para o Fórum. Voltamos, aqui, a ter um grupo local extremamente forte. Eles assumiram o Fórum. Teve também o aspecto da juventude, que estava muito presente. O mais importante é ver que a juventude se importa com política, não é só festa. Claro que até pode ter um pouco disso, mas nesse Fórum estiveram jovens que deviam ter 8 ou 10 anos quando o processo FSM começou e, agora, assumem o processo FSM.

Eu participei da Assembleia de povos indígenas contra a mercantilização, em defesa da terra e da vida pelo bem viver. Cursando um novo paradigma. E foi bem produtiva. Cobrávamos que não tínhamos propostas, agora temos inúmeras.

Ibase – Esse modelo de assembleias no último dia do FSM foi inaugurado em Nairóbi?

Cândido – Em Nairóbi foi um início, tivemos um tipo de convergência. Mas essas assembleias definiram metas e objetivos. E são construções que vem de antes do dia do FSM. Também começaram a definir um plano de ação. No Fórum ficam definidos muitos fóruns temáticos, muitas agendas concretas. São 2.310 atividades inscritas, uma complexidade criativa, foram 135 mil inscritos no FSM, 15 mil no Acampamento da juventude, 3 mil Crianças e Adolescentes e 5 mil de apoio, 2 mil jornalistas, 2.500 jornalistas credenciados para receber informações pela web. Dentro disso 1.400 quilombolas, 1.900 indígenas de 120 nações indígenas. Eles marcaram o Fórum.

Ibase – Em que ainda é preciso avançar?

Cândido – Tem coisas que continuam não dando certo. Nós não precisamos, para exprimir nossa diversidade, de 2.310 atividades inscritas. A autogestão precisa ser includente, é preciso buscar convergências com outros e discutir. Isso está inviável logisticamente. O resultado é que tem atividades que não acontecem porque, durante o Fórum se descobre que uma ou duas atividades inscritas têm afinidades e as entidades propositoras resolvem juntá-las na hora. Temos alguns problemas nesse processo. Mas problemas existem e vão existir. Mas o meu balanço é de que o Fórum sai revigorado.

Ibase – O fato de O FSM voltar a acontecer no Brasil ajudou para que fosse revigorado?

Cândido – Eu não sei se isso é determinante. É mais determinante a densidade social de organizações. Aqui foi maior do que em Nairóbi. Essa edição teve menos estrangeiros, isso não é determinante.

Ibase – Este é o nono ano do processo FSM. Nos primeiros a contraposição à Davos era muito marcante. E hoje?

Cândido – Agora é Davos que tem que fazer contraposição ao FSM. Estou defendendo até a mudança de data, afinal, convenhamos, é uma data ruim para todo mundo. É boa apenas pra ir à uma estação de esqui, que é o que eles em Davos vão fazer fazer. Eles nos criticam, dizendo que o FSM é uma festa, mas o que eles vão fazer lá nessa época? É porque têm outros interesses também.

Ibase – Você acha que a relação do FSM com a mídia ficou diferente?

Cândido – A mídia foi muito mais positiva em relação ao Fórum dessa vez, do que em outras. Mas sempre existem muitas críticas. Tem muita gente questionando se o FSM não está perdendo a autonomia, devido à relação com governantes. A intenção não é essa. Apenas mostra que nós não damos as costas ao Estado. Nós não estamos nos aliando, estamos dialogando, o que faz parte do processo de construção. Isso vai ser um ponto a pensar. Do que eu senti, e a maioria acha que é um marco, é que em vez de irmos à uma cúpula governamental, os governantes vieram a cúpula social. É uma inversão simbólica importante. Nós somos mandatários deles, nós os constituímos.

IbaseJá há alguma preparação para o FSM 2010?

Cândido – Teremos uma discussão, e acredito que a discussão mude em função das assembleias realizadas, pois elas dão o mapa da mina. Talvez uma estratégia seja fortalecer essas iniciativas, incorporar os vários fóruns temáticos, decidir um dia comum de mobilização, ou ainda, ver o que tem maior densidade de atividades propostas e dentro disso propor uma expansão. Não haverá um fórum centralizado no ano que vem, essa é uma decisão anterior . Mas em 2010 acontece fórum nos Estados Unidos, e esse pode ser mais aberto ao mundo em função da mudança governamental por lá. Há também propostas de que algo seja feito na Faixa de Gaza.

Publicado em 06/02/2009.

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* Cândido Grzybowski é Diretor Geral do Ibase e membro da Assembléia de Sócios do Inesc

democracia, Fórum Social Mundial

Arte Peruana no 9º FSM

1, fevereiro, 2009

Lucídio Bicalho – Inesc

O inesperado sempre foi um lugar comum em todas as edições do Fórum Social Mundial (FSM).  Nesta 9ª edição, só não havia dúvidas a respeito da chuva [certa] em Belém. Afinal, o FSM ocorre num território de floresta tropical. Ela fez questão de se apresentar aos peruanos de La Gran Marcha de los Munecoñes.

La Gran Marcha é um grupo cultural que se destaca pela qualidade artística e por ação político-social junto às comunidades na periferia de Lima. O grupo integra a Rede Latino-Americana de Arte para a Transformação Social.

No entanto, “La lluvia” foi implacável. Veio quando o grupo de artistas convidava o público para participar do lançamento da Articulação Latinoamericana Cultura e Política-ALACP .

A chuva não havia presenciado a cuidadosa preparação que artistas latino-americanos haviam feito no camarim improvisado. Também não se importou com a alegria do público. As atenções se dispersaram rapidamente. O foco, algo raro num fórum social, havia acabado. O sorriso do público deu lugar ao corre-corre geral.

Naquela tarde, a forte chuva encerrou as atividades que aconteciam em frente ao palco montado na Universidade Federal do Pará (UFPA). E La Gran Marcha terminou numa “Gran Parada”. Sorte a nossa não ter sido aquela a única intervenção dos andinos. No dia seguinte, o sorriso estava de volta nos rostos do público. Mas isso é outra história.

cultura e política, Fórum Social Mundial

Lançamento da ALACP no 9º FSM

30, janeiro, 2009

Por Lucídio Bicalho e Márcia Acioli*

A Articulação Latino-Americana Cultura e Política (ALACP) (www.culturaypolitica.com) fez seu o lançamento oficial no último dia 30 no âmbito do FSM, Belém (PA).

As atividades começaram com as intervenções de Iara Pietricovsky, Guilherme Reis, Eduardo Balan e Sebastian Molina. A mesa da manhã continuou com Márcia Acioli (INESC), Marisa Veloso (Professora da UnB), Alexandra Strickner (IATP) e Fabiano Santos (Ministério da Cultura/BR).

Essa segunda mesa abordou aspectos teóricos e exemplos
concretos da relação entre cultura e política. Foi ressaltada a essência cultural da atividade política e a existência da dimensão política nas manifestações culturais. A cultura foi abordada a partir do paradigma dos direitos humanos.

A defesa da educação de qualidade também foi lembrada no depoimento de quatro adolescentes de Brasília.  As jovens protagonistas Raissa Sampaio e Aline Maia representaram alunos de escolas públicas do DF, que fizeram um curso sobre orçamento público e direitos. O depoimento das alunas de Brasília ressaltou o aprendizado propiciado pela de formação como uma ferramenta de intervenção na realidade. O público também teve oportunidade de falar, trazendo contribuições ricas de suas próprias experiências.

A manhã terminou com a intervenção do grupo de teatro peruano La Grande Marcha de Los Munecones, que promoveu uma interação artística com o público nos arredores do Ginásio da Universidade Rural da Amazônia (UFRA). Os grandes bonecos convidaram o público a participar das atividades da ALCP durante à tarde.

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* Membros da delegação do Inesc ao FSM 2009

cultura e política, Fórum Social Mundial

Carta para uma militante

29, janeiro, 2009

Não pude ir à Belém. Você que está aí aproveite esta festa cidadã. Queria te pedir algumas coisas e recomendar outras.

Queria que você olhasse esse Fórum Social Mundial com muita atenção, pois ele não se dá em um momento qualquer. O planeta está passando por um momento de virada. Não me pergunte a direção. Só sei que devemos estar atentos. Um olho no trabalho e outro na alma.

Na minha leitura o tempo atual é de um reviver mítico do “em algum lugar além do arco-íris” para os norte-americanos. Para nós, os sul-americanos, é o mito de Maíra, o herói, a divindade dos povos Tupi. Àquele a quem atribuem a criação do mundo, dos homens e dos bens de cultura.

Na cosmogonia tupi Maíra fez a terra e os rios, depois mandou um macaco gigantesco plantar as matas. Depois saiu pelo mundo perguntando às coisas: “quem é você?”, e a mandioca respondia: “eu sou a mandioca”.  Assim, com todas as coisas existentes e ainda por existir.

Assim, neste contexto histórico “prá aonde vamos” insere-se o FSM, que se insere na mata amazônica. A mata cerca o FSM. Não a mata física, mas a mata simbólica, a mata que cada um traz desde os princípios dos tempos plantadas em seus inconscientes. Onde mora o Curupira, o Anhangá, o Saci, o Boitatá, o Anhanguera, a Uiara, a Cobra Grande e todos os parentes que foram gente um dia.

O tempo histórico e o tempo do FSM estão sendo gestados em um tempo mágico. Em um momento simbólico tão forte como o redescobrir o Eldorado. O Fórum revive mitos escondidos na nossa alma. Toca em sentimentos esquecidos. Memórias perdidas nas gerações passadas. Isso tudo não é material, é imaterial. É um sentir, um emponderar de alma e espírito.

Por isso, você que está aí, olhe com olhos da alma. Sinta espiritualmente o que daqui, do coração do Planalto Central, não posso sentir, mas intuir.

Quando estamos no redemoinho dos acontecimentos perdemos o sentido histórico do que vivenciamos. Fixamos na árvore e perdemos o bosque. Por isso, te escrevo para te alertar. Brecht aconselhava ao ator o distanciamento do personagem para que a platéia entendesse a crítica embutida na cena. Assim como o velho mestre alemão, recomendo-lhe o mesmo. Execute o distanciamento, mas não a ponto de não se envolver, de não vivenciar.

Por fim, perdoe-me de não estar acompanhando a marcha. De não estar gritando as mais toscas palavras de ordem. De não estar sendo ridículo junto com tantos outros ridículos que, por fim, ninguém o é. Você sabe que isto faz falta para a minha alma, para continuar a viver, mas outros compromissos me prenderam por aqui.

Bem, vou parando por aqui, pois o tempo é curto e precisamos avançar.
Um grande abraço carinhoso.

Edelcio Vigna

cultura e política, Fórum Social Mundial

E tudo começou com a cultura!

29, janeiro, 2009
Apresentação conjunta do rapper Gog, da cantora e compositora Ellen Oléria e da artista argentina do grupo Maria Marta, Malena.

Apresentação conjunta do rapper Gog, da cantora e compositora Ellen Oléria e da artista argentina do grupo Maria Marta, Malena.

Lucídio Bicalho (INESC)
Marcia Acioli (INESC)

O 9º Fórum Social Mundial teve início neste dia 27 de janeiro com a marcha de abertura pelas ruas de Belém (PA), cidade sede do encontro. A abertura foi marcada pela diversidade de rostos, o que é típico deste que é o mais importante encontro dos movimentos sociais do planeta.
Entretanto, teve destaque a participação dos povos indígenas. E não poderia ser diferente, pois os temas principais do 9º FSM são a defesa do meio-ambiente  e da floresta amazônica, o aquecimento global  e os povos indígenas.
A marcha e o palco de abertura demonstraram esse enfoque. Destacaram-se dezenas de índios caracterizados correndo pelas ruas armados com arco e flecha! Ao final, no palco, revezaram diferentes etnias, havendo a participação de índios de diferentes países da América Latina. Foi um show de cores, diversidade, música e idiomas.
O show no 2º dia foi uma prévia das atividades culturais da ALACP (Articulação Latino-Americana Cultura e Política).         nos dias 30 e 31 no ginásio da Universidade Federal Rural Amazônica- UFRA.
Destacou-se a apresentação conjunta do rapper Gog, da cantora e compositora Ellen Oléria e da artista argentina do grupo Maria Marta, Malena. Debaixo de um sol escaldante, o público se deliciou com a forte mensagem política da música destes três artistas. Foi a primeira apresentação conjunta deles que, a despeito do rápido ensaio dentro da van que nos levou, houve grande sintonia estética que fez o público vibrar.  Sorte de quem os acompanhou e ouviu “palhinhas” de diversas outras canções.
O show do dia 30 no Geospace da  UFRA promete. A intervenção dos artistas é prova contundente de que a cultura e política são essencialmente articuladas. Essa é aposta do Inesc e da ALACP que inovam na agenda do FSM com esse debate.
Participaram entusiasmados,  tanto no primeiro quanto no 2º dia, a equipe do Inesc (Ana Paula, Ricardo Santana, Iara Pietricovsky, Lucídio Bicalho, Márcia Acioli e as adolescentes Raíssa Sampaio, Aline Maia, além dos representantes do ALAPC.

cultura e política, Fórum Social Mundial, Inesc