Chega ao fim a audiência pública sobre Belo Monte
Neste 1º de dezembro, Brasília foi palco da democracia. Pelo menos no que se trata da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. Para discutir o polêmico projeto do governo foram chamados ao auditório da Procuradoria Geral da República (PGR) representantes do governos e populações indígenas, reibeirinhas, agricultoras e de pescadores - as quais serão mais atingidas caso o projeto se realize. O intuito do Ministério Público Federal (MPF) era dar voz à população mais vulnerável.
Os indígenas (maioria na audiência) expressaram sua preocupação com o projeto e principalmente seu repúdio à construção da hidrelétrica. Em geral, eles disseram que o rio é a vida do índio. Os povos indígenas comem beiju e peixe. E com a construção da hidrelétrica, eles ficarão sem seu principal alimento. Além disso, eles estão muito aflitos, pois podem perder suas casas e sua sua cultura. “Exijo respeito do governo. Renego a construção de barragens no Brasil. E, ainda, peço ajuda das autoridades para que a construção da hidrelétrica não aconteça”, declarou o cacique Tsowaiõ Orebewê, xavante de Mato Grosso. Assim, o cacique resumiu o pensamento dos indígenas e populações ali representadas.
Outra grande reclamação dos participantes da audiência pública foi a falta de representantes do governo federal. Não foram ao debates membros da Fundação Nacional do Índio (Funai), da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e das Centrais Elétricas Brasileiras S.A. (Eletrobrás), por exemplo. Estes organismos são interlocutores importantes no debate. A Presidência da República e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) enviaram representantes.
A audiência se alongou bastante e os povos que dependem do rio Xingu puderam falar e enviar documentos às autoridades presentes no debate.
O coordenador nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens, Rogério Hohn, trouxeu um novo entendimento para a questão da barragem de Belo Monte. Segundo ele, os problemas que impactarão a população e o ambiente não devem ser encarados como problemas só daquela localidade. “Este é um problema que atinge todos: o índio, o não índio, os ribeirinhos e os moradores da cidade. Temos que acreditar na solidariade. O problema de um é problema de todos”. Hohn trouxe ainda o dado que hoje, no Brasil, existem mais de 2 mil barragens e outras 500 estão programadas para serem construídas em breve.
Começa a seção de debates da audiência pública que discute os impactos da usina de Belo Monte sobre as populações do Xingu (PA).
A criação de um grupo de estudo para avaliar o impacto ambiental da obra de Belo Monte foi o foco da fala de Francisco Hernandes, engenheiro elétrico da Universidade de São Paulo (USP). Ele contou que a pedido da Eletronorte, Eletrobrás e Camargo Correia o grupo avaliou, ao longo de dois meses, 18 mil páginas que tratavam dos impactos ambientais em Belo Monte. “Levantamos vários pontos falhos. Fizemos o estudo com dois objetivos: 1) ajudar a população local a participar de maneira crítica nas reuniões; e 2) divulgar as consequências do empreendimento para as comunidades atingidas”.
A coordenadora da 4ª Câmara do Ministério Público Federal para Assuntos de Meio Ambiente, Sandra Cureau, afirmou que ainda não há como mensurar todos os impactos negativos que podem ser causados pela construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. “A sociedade tem que conhecer os impactos socieconômicos e de transmissão, além do impacto ambiental que serão produzidos neste local. No entanto, até agora a visão é fragmentada”. Ela também ressaltou que está havendo um número grande de concessões para obras pelo Ibama. “Isto se se deu por vários fatores. Um deles é a pressão política”, avaliou.
Para o procurador da República no Pará, Ubiratan Cazetta, a falta de participação da população no processo mostra falha na democracia. “Até existem audiências nas localidades, mas elas não são bem divulgadas. No entanto, o que fica é a aparência de que argmento foi discutido”. Para ele, deve-se questionar o movimento daqueles que defendem as hidrelétricas como se não houvessem outras formas mais limpas de geração de energia a serem consideradas.
Já o procurador da República em Altamira (PA), Rodrigo Timóteo, lamentou o ruído de comunicação que impede que a voz dos mais prejudicados seja ouvida. “Nesta falha do diálogo, estamos agindo para garantir a participação efetiva dos índios. A Funai agiu covardemente quando disse aos indígenas que a audiência não era uma oitiva e no documento final foi assim colocado. Mas a população local está aqui para lutar e para ser ouvida”.
Antônia Melo, coordenadora do Movimento Xingu Vivo para Sempre, começou enfática a sua fala: ”durante esse tempo não tivemos o direito de ser ouvidos”. Mais do que isso, ela declarou que a voz dos indígenas pouco importou aos governos e reforçou a inviabilidade do empreendimento a partir de análises técnicas. “É um empreendimento destruidor. É uma catástrofe para os habitantes da região”.
Em seguida, o coordenador da Coiab no Amazonas, Marcos Apurinã , ressaltou que a luta contra a obra vai continuar independente de algumas autoridades não estarem presentes na audiência. Ele lembrou que no Xingu existem ainda muitas aldeias indígenas que só se alimentam de peixe. “Se o peixe acabar, os índios morrem”. E finalizou: “se o governo não quer nos ouvir, paciência. Daí também não teremos mais o que falar…”.
A vice-procuradora geral da República, Débora Duprat, abriu a audiência pública sobre a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte explicando que, apesar da antecedência com que foi planejada e da confirmação de autoridades, alguns atores estratégicos, como a Eletrobrás e a Funai, faltaram ao debate que se inicia em Brasília (DF).
A construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu (PA), está sendo debatida neste momento em audiência pública no auditório da Procuradoria Geral da República (PGR). A audiência é resultado de pedidos de diversos grupos indígenas e movimentos de direitos indigenas e tem como objetivo esclarecer dúvidas e garantir o direito de voz da população da região atingida pela construção.
Atila Roque*