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Pouca mobilização na abertura da Cumbre

19, abril, 2009

Mesa de Abertura da 5a. Cumbre de los Pueblos

Edélcio Vigna, Assessor do Inesc

A 5ª Cumbre de los Pueblos foi oficialmente aberta ontem (16/04), na universidade de Trinidad & Tobago. Não houve uma grande participação, mas havia uma diversidade de representações da sociedade civil.
O coordenador do evento foi chamando ao microfone as lideranças das organizações que promoveram a Cumbre. As falas eram de boas vindas, mas também de um chamamento a mobilização em um tempo de crise e incerteza.

As palavras caíam bem para os movimentos de um país que importa toda sua alimentação dos Estados Unidos. Pode-se falar que Trinidad é um país que come muito mal. A base alimentar é arroz, algumas verduras e frango. Em geral a culinária é um risoto (ou vários tipos de risotos) acompanhado de pedaços de frangos, que explodem de hormônios. Essa dieta já está impactando população que ganha peso apesar da pobreza nutricional.

Depois das falas dos promotores da Cumbre foi organizada uma Mesa de Debates sobre a crise. Compuseram a Mesa, um professor da Universidade, um militante do Haiti e outro dos Estados Unidos, coordenada por uma brasileira, Graciela Rodriguez, da Rede Brasileira pela Integração dos Povos (Rebrip).

O professor Norman declarou que a crise é uma realidade vivente que está devastando vidas. Testemunhou que famílias caribenhas que dependiam de remessas de dólares dos EUA estão em desespero. Que o número de pessoas desempregadas é crescente.

Afirmou que o plano de resgate financeiro que os governos estão realizando vai ser pago pelo contribuinte. Isso significa mais dívidas e desespero. Que os pacotes de recursos para superar a crise vêm de cortes de recursos nos programas sociais.

Segundo o professor a natureza anárquica do sistema capitalismo estimula a avareza, a riqueza material e glorifica o consumismo. Esse sistema, se precisar, vai utilizar o poder militar para se recompor.

Assim, terminou sua apresentação, a ONU é o único foro legitimo para resolução da crise. É o G192 (referencia ao número de países que compõem a ONU), não é o G8 ou G20 que poderá solucionar a crise.

Henry Hold, da organização norte-americana Firts Food, declarou que nunca se produziu tanto alimentos como agora. Mas, o número de subnutridos é crescente. Que a indústria agroalimentar está ganhando como nunca no mundo.

As autoridades e os meios de comunicação culpam as causas climáticas pela crise; que indianos estão comendo demasiada carne; que os bois estão comendo muito grãos. Mas, não observam como estão utilizando a fertilidade da terra.

Para Henry, as sociedades têm que ter um instrumento global de controle de alimentos. A produção, distribuição e controle de preços estão concentrados em monopólios que são ligados as empresas multinacionais agroalimentares.

Camile, um estudioso haitiano, polemizou afirmando que há uma disputa ideológica sobre o conceito de crise. Os meios de comunicação se referem a “crise” como se fossemos todos e todas capitalistas. Perguntou à plenária quando é que as populações pobres não estão em crise. Assim, podemos diferenciar o que é crise para os capitalistas e o que é para os pobres.
Declarou que as propostas do G20 não vão nem mitigar a crise, porque atacam apenas o conjuntural e não o estrutural. Terminou com duas frases de Gramsci: “Crise é um momento donde vemos as piores monstruosidades manifestar-se” e “Crise é quando o que é anacrônico na sociedade não foi superado e o que é novo ainda não se manifestou plenamente.

integração, política

A crise e o continente vistos de Trinidad & Tobago

16, abril, 2009

Edélcio Vigna, assessor do Inesc e coordenador do GT de Agricultura da Rebrip (Rede Brasileira Pela Integração dos Povos), envia diretamente de Trinadad Tobago, onde acontece a 5a Cumbre das Américas, um relato instigante e cheio de boas perguntas a partir da Reunião da Coordenação da Aliança Social Continental, da qual a Rebrip faz parte. As respostas que seremos ou não capazes de construir fazem parte do processo de reinvenção do regionalismo e da cooperação sul-sul-norte do qual somos participantes ativos através de nossas redes e articulações das sociedades civis de nossos países.  Atila Roque (Colegiado de Gestão do Inesc)

A coordenação ampliada da Aliança Social Continental reuniu-se na Universidade Federal de Trinidad. Havia cerca de cinqüenta pessoas representando organizações de todo continente americano.

A análise girou em torno da crise e seus impactos regionais. Há um consenso que a crise é sistêmica e as alternativas também devem ser globais. Como estamos em uma Cumbre de los Pueblos o desafio é encontrar caminhos continentais. Assim, a pergunta é: “O que queremos com a Cumbre?”

Todos e todas militantes reconhecem que o atual modelo está esgotado, assim como estão velhas as nossas estratégicas. Uns afirmam que o trabalhador/a não deve pagar pela crise. Outros repõem a afirmação de que o trabalhador/a já paga pela crise.

A conversa foca qual é o papel de Obama. O companheiro mexicano contesta que é mais fácil enfrentar um poder violento, pois este gera resistência, do que um poder que seduz. Obama seduz. Outro em tom de aviso diz que não podemos criar expectativas falsas, nem desprezar o fenômeno afrodescendente. Obama produziu uma mudança no pensamento do povo norte-americano. Mas, ainda assim, a fala suave, é a que conduz a recuperação da hegemonia dos EUA pelo multilateralismo.

A discussão envolve as demandas dos sindicalistas que estão no campus realizando a Cumbre Sindical. O que demandam? Trabalho e emprego. Mas, querem garantir o emprego para construir mais automóveis para entupir as estradas e poluir o ar, pergunta uma companheira. O grupo faz uma breve incursão pela matriz energética atual.

O debate retoma o desafio das estratégias. Nada de atitudes defensivas, diz um companheiro. A crise é um momento de fortalecer laços unitários entre os movimentos sociais, pondera um segundo. Não devemos aceitar o cenário do G20. Não se pode aceitar o prolongamento da existência dos velhos mecanismos que nos conduziram a crise. Não permitir, também, as legislações regressivas e restritivas de direitos. Há um consenso em torno da falas, que me parecem óbvias.

O coordenador da Aliança Social Continental coloca na mesa tema polêmicos: novos governos e os modelos de integração, em especial a Alba. Alguns movimentos, como o indígena andino, fazem críticas pesadas aos governos da região e se dizem estar sendo afastados dos centros de decisão. Outros fazem ponderações a respeito da Alba, focando a matriz energética.

No adiantado da hora voltamos a debater quais serão os produtos da Cumbre. Há uma proposta de Declaração, diz o coordenador. Podia-se também fazermos uma Carta Aberta dirigida aos presidentes, sugere outro. A proposta é aceita e formam-se dois grupos para redigir os documentos.

Já é noite quando a reunião entra nos informes regionais. Cada representante de país fala um pouco sobre quais as políticas e atividades que estão sendo desenvolvidas na região. Há um esvaziamento da plenária. Uma pausa para o lanche (alguns salgadinhos acompanhados com um copo de refresco natural). O trabalho é retomado e segue mais algumas horas.

Debate-se agora o dia de hoje: a Plenária de Abertura e o trabalho dos grupos pela tarde. O coordenador do GT Agricultura da Aliança Social Continental não pode vir: está exilado político no Brasil. Convocam-nos para assumir a coordenação – forma-se um grupo e definimos a metodologia e a mesa de debate.

Todos e todas estão exaustos. O dia de amanhã será pleno de atividades. As conversas se estendem até a porta das Vans que nos levarão aos diferentes hotéis. Ninguém toca no assunto, mas há uma expectativa sobre o poder de mobilização das organizações trinitinas.

democracia, integração, política